D3 – um hormônio confundido com vitamina – PARTE 2 – Bioquímica

Essa parte do texto é eminentemente técnica, talvez você goste, talvez você ache demasiado ‘acadêmico’, mas eu incluí aqui por entender ser muito necessário você saber o que acontece em seu corpo, de forma geral.
O termo vitamina D engloba um grupo de moléculas derivadas do colesterol produzido em nosso organismo. Mais precisamente, do 7-deidrocolesterol (7-DHC), você já ouviu esse nome por aqui. A partir dele, ocorre uma cascata de reações fotolíticas, ou seja, ativadas pela luz, e enzimáticas, que acontecem em células de diferentes tecidos, em diferentes órgãos. Também nessa denominação abrangente está a forma inativa da vitamina D, o chamado calcidiol, que é convertido na forma ativa chamada calcitriol – 1 alfa, 25 dihidroxi-vitamina D – e seus precursores, ou seja, todas as formas anteriore. Isto está longe de ser simples, tanto que essa cascata de reações e inativações foi chamada de Sistema Endocrinológico da Vitamina D. A ele é atribuído, inicialmente, o papel de regulador da fisiologia osteomineral, em especial do metabolismo do cálcio. Entretanto, a 1-25-dihidroxi-D está extremamente envolvida na homeostase, que é a condição de relativa estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente, também de vários outros processos celulares, entre eles a síntese de antibióticos naturais pelas células de defesa, a modulação da autoimunidade e a síntese de interleucinas inflamatórias, tem impacto no controle da pressão arterial e é muito importante na regulação dos processos de multiplicação e diferenciação celular. É também atribuída à vitamina D o papel antioncogênico, quer dizer, o papel de combater as células cancerígenas em nosso organismo.
Muitos estudos realizados nas últimas décadas mostram que a vitamina D impacta em mais de 900 genes-alvos, o que corresponde a cerca de 3% do genoma humano. Isso é simplesmente incrível! Devem ser mais de 290 sínteses enzimáticas. O reconhecimento da importância da vitamina D na nossa saúde global despertou um grande interesse na comunidade científica. Aqueles estudos todos mostraram que uma grande parcela da população mundial, independente da idade, etnia e da localização geográfica, apresenta baixos níveis de vitamina D. Em território brasileiro, os estudos mostram prevalência de baixos níveis em cerca de 60% dos adolescentes, de 40% a 58% nos adultos jovens e entre 42% e 83% em idosos, com taxas mais altas ainda de deficiência entre indivíduos com idades mais avançadas. São dados oficiais, comparados às referências adotadas como adequadas pelo governo brasileiro. Se estas referências oficiais estiverem realmente baixas, por conta de dados anacrônicos, – vamos abortar essa questão logo em seguida – os resultados são ainda piores e mais dramáticos! Esse panorama por si só é muito polêmico, porque não há consenso em qual seria o melhor ensaio laboratorial para a dosagem da vitamina D e quais parâmetros devem ser utilizados para definir se um indivíduo tem suficiência, insuficiência ou deficiência de vitamina D.
Nos seres humanos, apenas 5% a 10% da vitamina D necessária à adequada função do organismo vem da dieta. Na alimentação, as principais fontes são de origem animal – a vitamina D está presente nos peixes gordurosos de água fria e profunda, como atum, salmão e no plâncton -, e tem também o ergosterol, de origem vegetal, presente nos fungos comestíveis. Os restantes 90% a 95% que necessitamos são sintetizados pelo nosso organismo. Ou deveriam. Em nosso corpo, tudo começa nas camadas mais profundas da pele, onde está armazenado o precursor 7-deidrocolesterol. É necessário que tomemos sol, luz solar direta, mais especificamente, precisamos da radiação ultravioleta tipo B. É uma frequência da luz solar de comprimento de onda entre 290 e 315 nanômetros. Ela atinge o planeta entre 10h30 da manhã e 14h30 durante os meses mais quentes. Dependendo de onde estamos no planeta, se mais próximo do equador ou mais distante dele, essa radiação sofre interferência e perde poder, potência. Nas estações do ano mais frias essa interferência também ocorre, por isso, no inverno, nas regiões temperadas, os governos atentos fazem suplementação de vitamina D às suas populações. Pois bem.

Esta é a ‘cascata’ fisiológica de produção da vitamina D3 em nosso organismo

Outra variável muito importante nessa etapa de ativação da vitamina D é a quantidade de melanina na pele. Melanina é o que dá pigmentação, cor, e proteção contra a radiação solar. Quanto mais melanina, mais escura é nossa pele, menos absorvemos a radiação ultravioleta. Por isso, indivíduos com pele mais escura precisam de mais exposição ao sol para sintetizarem a mesma quantidade de vitamina D3 que indivíduos de pele clara.
E quanto de sol você deve tomar? Quanto mais sol, mais vitamina D? Não. O corpo é sábio, já vimos que o excesso de vitamina D causa intoxicação, portanto, há um mecanismo natural de proteção contra a síntese excessiva de D3. Quando ficamos muito tempo em exposição ao sol, a pré-vitamina D3 se transforma em 2 outras substâncias quase inertes. Veja só, vou lhe dar um exemplo prático. Ao nível do equador, durante um mês de verão, ao meio dia, com o sol a pino, um adulto de 70 quilos, saudável, pele clara, exposto completamente ao sol, sua pele é capaz de produzir 5 miligramas de vitamina D3 em 20 minutos. Se você preferir, fazendo a conversão direta, o corpo produz 20.000 Unidades Internacionais. Depois desse curto período, percebe-se que a pele ganha uma coloração avermelhada, formam-se os “eritemas”, ou seja, manchas pontilhadas vermelho-esbranquiçadas por conta da vasodilatação dos vasos capilares da pele. Neste estágio, cessa-se a produção de colecalciferol e os excedentes serão inertes. Da pele ou mesmo advindo da dieta, o colecalciferol cai na corrente sanguínea e segue para o fígado, onde passa por reações bioquímicas de hidroxilação do carbono 25. Daí o nome 25-hidroxi-vitamina D, ou, calcidiol, que é o pré-hormônio ou pró-hormônio. Veja, o corpo é uma orquestra onde dificilmente um único músico se destaca. Dito isso, uma parte significativa do processo ocorre nos rins! A enzima que ajuda na hidroxilação, na ativação, é produzida neles, onde o calcidiol é transformado em calcitriol ou 1,25-dihidroxi-colecalciferol – a forma ativa da vitamina D encontrada no corpo. Essa ativação também acontece em outros tecidos do corpo, mas os rins concentram grande parte do processo. Então, o calcitriol aumenta a absorção de cálcio pela via intestinal, inibindo a excreção deste mineral pelos rins, entendido?
Nesse ponto acho que já é o suficiente, né? Este texto não é uma aula de bioquímica, portanto, chega de nomes complexos e formulações bioquímicas.
E o que é muito importante você saber? Que a vitamina D3 ativada possui receptores em quase todas as células do corpo humano, com exceção das hemácias (que são células do sangue), exceção também em algumas células musculares estriadas maduras e algumas células altamente diferenciadas do sistema nervoso central. Então, veja só, em um resumo: a vitamina D3 ativada é responsável pelo metabolismo osteomineral, por vários processos de regulação do sistema imunológico, pelo ciclo celular, e neste, principalmente pela apoptose, que é a morte celular programada. Sem a apoptose, as células tornam-se ‘imortais’, viram células cancerígenas, que são aquelas que se proliferam sem controle; a vitamina D3 ativada também é responsável pelos processos relacionados à fertilidade do indivíduo, pela saúde do sistema cardiovascular e pressão arterial, pelo controle do metabolismo glicídico, ou seja, está na raiz da produção da insulina pelo pâncreas; também está no processo de desenvolvimento do sistema musculoesquelético – impacta na produção das fibras musculares e no volume da massa muscular. No cérebro, estudos novos mostraram que a vitamina D3 ativada tem ação estimuladora do fator de crescimento neural (NGF) e modulação do desenvolvimento cerebral. Vários outros tecidos, como placenta, pulmões, próstata, adipócitos – que são as células de gordura -, retina, entre inúmeros outros, também são impactados pela vitamina D3 ativada. De novo – esse pró-hormônio regula 3% de todo nosso genoma, portanto, é absolutamente fundamental em nossa vida, em nossa saúde.
E como isso aconteceu? Bem, isso aconteceu ao longo de, pelo menos, 3,5 milhões de anos de evolução humana, desde os hominídeos. Olhando bem mais para trás, o pró-hormônio D3 é muito mais antigo. Os hominídeos herdaram de seus antecessores esses processos bioquímicos. Daí ser quase impossível de se calcular quando se deu o início de tudo. Tudo porque, durante todo esse período, estivemos suscetíveis, muito expostos, à radiação solar, à luz do sol. Toda nossa evolução foi batizada tendo a energia solar como fonte de vida.
Agora, reflita comigo. A vida do homem sempre foi ao ar livre. As roupas, as coberturas artificiais de proteção contra o frio e outras intempéries foram sendo adotadas em nosso estilo de vida ao longo dos últimos 200 mil anos. Isso é especulativo, ok? Mas a vida continuou ao ar livre, em contato direto com a luz solar. Por isso, todo nosso organismo é absolutamente dependente da radiação ultravioleta. Sem radiação, não existe vitamina D3. Sem vitamina D3, não há vida, não há saúde. Então, me responda? O que estamos fazendo hoje? Você acorda em sua casa, protegido da luz solar. Entra no seu automóvel, ou pega um transporte público, protegido da luz solar. Vai trabalhar em um escritório, loja ou fábrica, protegido da luz solar. No fim do dia, quando a luz do sol já está fraca, minguada, faz o caminho contrário e chega em casa. Que radiação benéfica impactou sua pele? Quanto de pró-hormônio D3 seu organismo conseguiu produzir com isso? Percebeu o problema? Lembrando de tudo o que eu falei aqui, antes, quantas doenças você está desenvolvendo silenciosamente pela falta ou deficiência de D3?
Está na hora de fazermos contas, certo? Você precisa saber quanto de 25-hidroxi-D você precisa ter circulando em seu sangue para manter os processos metabólicos saudáveis.
E aqui, antes disso, preciso fazer novas considerações pra gente conseguir chegar a uma conclusão correta. O que as agências e órgãos de controle e saúde afirmam ser índices saudáveis, ou, no mínimo, aceitáveis?
Quem ou como esses índices foram calculados? Que exames foram feitos e como? Pois é, aqui está, uma outra novela. Sente-se ainda mais confortavelmente que lá vem outra história.
Durante a Segunda Grande Guerra Mundial, nos Estados Unidos, claro, sempre lá, uma comissão técnica foi criada com o objetivo de investigar problemas de nutrição que poderiam afetar a defesa nacional. A comissão estudou alimentos energéticos e uma lista de nutrientes, criando um conjunto de diretrizes ou normas. Essas normas seriam usadas como recomendações nutricionais para as forças armadas, para os civis e para a população exterior que poderia ter necessidade de ajuda alimentar. Por causa do racionamento de comida durante a guerra, os guias alimentares levaram em conta a disponibilidade de alimentos na época. Esses estudos foram chamados de RDA – Recommended Dietary Allowance. Várias revisões foram feitas a partir das mudanças em estilo de vida e disponibilidade alimentar, e, em 1997, por sugestão do Instituto de Medicina da Academia Nacional dos Estados Unidos, a RDA se tornou parte de um amplo conjunto de orientações dietéticas chamado Dietary Reference Intake – DRI – utilizado tanto pelos Estados Unidos quanto Canadá. Claro que países por todo o mundo acabaram por adotar orientações semelhantes, alguns têm tabelas próprias, outros adotaram as recomendações fornecidas pela OMS – Organização Mundial da Saúde e FAO, sua agência especializada em esforços para erradicar a fome no mundo. No Brasil, encontrei uma resolução de 2005, publicada pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, da aprovação do Regulamento Técnico sobre a Ingestão Diária Recomendada – IDR – de proteína, vitaminas e minerais. Nessa publicação há uma série de tabelas de valores nutricionais por faixas de idade, vou comentar sobre elas um pouco mais adiante. Pois bem. As DRIs internacionais, ou IDR brasileira, têm como um dos objetivos orientar profissionais que atuam na área de alimentação e nutrição sobre os novos conceitos e recomendações nutricionais e sua interpretação. Assim, as DRIs podem ser usadas para planejar dietas, definir rotulagem e para programas de orientação nutricional. Um ponto que me chamou a atenção foi o seguinte – abre aspas – “assim como as antigas RDAs, cada DRI refere-se a uma ingestão de nutrientes ao longo do tempo por indivíduos aparentemente saudáveis”. Isto está em um documento da ILSI – International Life Science Institute, uma fundação científica pública, filiada à OMS. Aparentemente saudáveis significa uma população de pessoas que não manifestaram doenças, que têm seus exames laboratoriais dentro da média normal. Outro ponto que me chamou a atenção naquele documento – abre aspas – “as DRIs são formadas por valores de referência baseados em dados, contudo, estes são frequentemente escassos ou tirados de estudos que possuem limitações para tratar a questão”. Em outras palavras, a origem, tratamento, assertividade e acurácia daqueles dados é obscura. Há dados que vêm sendo herdados há décadas, e não se questionam as origens ou os métodos que foram usados para extraí-los. Claro, eu não posso ser leviano – preciso fazer um aparte aqui – minhas considerações nesse texto têm o objetivo de analisarmos somente a questão da vitamina D, por isso, não posso generalizar. Grupos de estudiosos, historicamente, vêm se debruçando sobre o assunto nutrição, há muita complexidade nisso, muitos desdobramentos, muitas reflexões sobre padrões, normalidade, exceções, julgamento científico etc. As variáveis são infinitas – há tabelas de ingestão dietética recomendada, de necessidade média estimada, de ingestão adequada, de limites superiores toleráveis, de biodisponibilidades, de interações entre nutrientes e micronutrientes, tabelas de risco, entre outras. Portanto, temos de ter muito cuidado para não levantarmos questionamentos contestáveis ou não genuínos.

(Continua na parte 3)

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