D3 – um hormônio confundido com vitamina – PARTE 3 – Quanto você necessita?

Vamos voltar à questão original: quanto de 25-hidroxi-D você precisa ter circulando em seu sangue para manter os processos metabólicos saudáveis? Esse índice é medido em nanogramas por mililitro, ng/mL. Uma revisão publicada recentemente na Nature Reviews Endocrinology discute as diferenças nas recomendações para suplementação de vitamina D em mais de 40 países, trazendo também a forma como diferentes agências e países recomendam que seja feita a interpretação dos níveis séricos (no sangue) de 25 hidroxi D.

Vou traduzir a tabela para você: na Holanda, acima de 12 ng/mL um indivíduo já estaria em quadro de suficiência. Na Austrália e Nova Zelândia, acima de 20 ng/mL. Para a associação global Endocrine Society, acima de 30 ng/mL. Finalmente, para a Vitamin D Council and Experts, acima de 40 ng/mL. Alguns especialistas, estudiosos dedicados à vitamina D3, defendem que os níveis ideais para a manutenção e boa saúde está entre 40 e 70 ng/mL. Eu acompanho um grupo de médicos brasileiros que defendem números ainda mais anabolizados que esses. Temos profissionais que defendem taxas entre 70 e 120 ng/mL. Em seus consultórios, pacientes que fazem suplementação para atingirem esses níveis têm acompanhamento constante e não apresentam efeitos colaterais, o que nos faz querer observar mais de perto, de aprofundar os estudos e entender, principalmente, as causas da intoxicação.
Voltando à tabela, tem coisa esquisita aí, pra dizer o mínimo: como se chegam a resultados tããão diferentes para um índice tão importante? Que país, órgão ou grupo de estudo está certo? O que defende 12 ng/mL ou o que defende um mínimo de 70? A diferença é gritante!
Talvez haja uma preocupação, isto impacte diretamente no conservadorismo de alguns números – talvez outras disfunções orgânicas sejam acionadas a partir dos níveis elevados de colecalciferol no sangue, o que justificaria a tão alarmada hipercalcemia, uma condição que os níveis de cálcio no sangue sobrem muito e há deposição nos tecidos, o que pode ser fatal a longo prazo. Geralmente, a hipercalcemia é uma desordem metabólica associada ao câncer ou à hiperatividade das glândulas paratireoides. Esse cálcio extra circulante afeta muitos sistemas no corpo. Há uma certa unanimidade internacional que coloca o nível de 140 ng/mL de 25-hidroxi-D no sangue como sendo o limite inicial para uma provável intoxicação por D3. Aliás, segundo The American Society for Bone and Mineral Research, em português “Sociedade Americana para Pesquisa de Ossos e Minerais”, os efeitos colaterais ligados à esta suposta intoxicação advêm do excesso de cálcio circulante, pois não há relatos ou pesquisas que corroborem quaisquer sintomas ligados ao excesso da D3, ou de suas precursoras ou derivadas.
Mas onde tudo isso nos leva? Tem mais um dado que precisamos entender. Foi calculada a produção ou o consumo de vitamina D3 e sua relação com os índices de colecalciferol circulante no sangue. Veja bem: em um indivíduo saudável, de 70 quilos, cada 1.000 unidades internacionais ou 25 microgramas de vitamina D3 podem elevar os níveis sanguíneos em 7 ng/mL. Se você fizer um exame de 25-hidroxi-D circulante no sangue e ele detectar um índice de 20 ng/mL, ao cabo de algumas semanas, você pode aumentá-lo para 50 ng/mL tomando 4.300 unidades internacionais diariamente. Isso se você pesar 70 kg. Se você estiver desconfiado desses números, se achar demasiados ou exagerados, eu lhe digo o seguinte: segundo publicação da The American Society for Bone and Mineral Research, abre aspas, “as evidências de ensaios clínicos mostram que uma ingestão prolongada de 250 μg (10.000 UI)/d de vitamina D3 provavelmente não apresenta risco de efeitos adversos em quase todos os indivíduos da população em geral, e isso atende aos critérios para um nível de ingestão superior tolerável”, fecha aspas. Não entenda isso como uma sugestão, hein? É apenas um exemplo para que você tenha ciência de como a coisa, mais ou menos, funciona.
Eu quero voltar à resolução da ANVISA e suas recomendações. A ideia aqui é mostrar um claro descompasso entre a ciência atualizada e a prática política. Então, a resolução RDC nº 269 de 22 de setembro de 2005, abre aspas, “atualizando os valores de ingestão diária recomendada de vitaminas, elenca o seguinte em suas tabelas:

  • Ingestão diária para adultos: 5 microgramas ou 200 unidades internacionais;
  • Ingestão diária para lactentes e crianças: 5 microgramas (considerando crianças de zero a 10 anos) ou 200 unidades internacionais; e;
  • Ingestão diária para gestantes e lactentes: 5 microgramas ou 200 unidades internacionais.

A resolução deixa clara a necessidade de se atualizar os valores e parâmetros de ingestão diária para indivíduos de diferentes grupos populacionais, e que o descumprimento constitui infração sanitária.
Depois de tudo o que vimos até aqui, isso faz algum sentido para você?
Veja, eu não estou recomendando nada a você, muito menos prescrevendo! Não sou médico, não conheço você, não sei de suas deficiências e do seu estado de saúde. E aqui vai mais uma ressalva: 25-hidroxi-D circulante não significa vitamina D3 absorvida e funcional no seu organismo. Se os seus rins estiverem doentes, eles podem não ativar o calcidiol, não conseguem transformá-lo em calcitriol. Geralmente, quem faz hemodiálise por exaustão ou falência renal não ativa a D3. E há um último agravante: seus receptores celulares de D3 podem estar saturados, você pode sofrer de resistência ao calcitriol! É raro, mas pode acontecer, então tudo o que lhe mostrei aqui não faz sentido para o seu organismo. E tem mais – quanto mais velhos ficamos, menor nossa capacidade de transformar 25-hidroxi-D em 1-25-hidroxi-D. Um indivíduo de 70 anos tem, em média, 4 vezes menos capacidade de ativar a vitamina D que um jovem de 25 anos.
Qual minha recomendação? É a seguinte. Em primeiro lugar, observe-se atentamente. A ideia é procurar sintomas possíveis da deficiência de vitamina D. Se você tem uma inflamação do nervo óptico – isso é um possível sinal de esclerose múltipla-, ou sente uma diminuição geral do desempenho, se tem dores de cabeça após esforço físico, ou dores nas articulações, ou tremores e cãibras musculares, se dorme muito mal, se sente diminuição da concentração, e por último, tem unhas quebradiças, uma conjunção desses sinais pode ser um alerta. Vá ao seu médico, faça o exame de 25-hidroxi-D, e todos os outros necessários para avaliar corretamente sua condição – por exemplo, os níveis de paratormônio, de cálcio total, e outros – deixe que ele avalie você e prescreva a suplementação. De tempos em tempos, refaça o exame a fim de criar um acompanhamento. Isso é muito importante.
De novo, lembre-se que a forma ideal de obter D3 é pela produção endógena, a partir da luz solar. O corpo forma a maior parte da vitamina D que você necessita convertendo a luz solar na pele. As quantidades em excesso são armazenadas no tecido adiposo, quer dizer, na sua gordura corporal, no tecido muscular e no fígado. Para isso, é necessário expor áreas maiores da pele ao sol por períodos mais longos todos os dias.
Por último, um aviso: esse assunto vitamina D3 não para por aqui. Tem muita coisa ainda para tratarmos juntos. Precisamos tratar dos receptores da D3 no corpo, da prevenção da deposição do cálcio nos tecidos moles, do impacto da D3 no sistema imune, entre muitos outros. Nos próximos textos, ok? Então, até lá, um abraço!

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