O artigo mais importante que você vai ler em sua vida – PARTE 2

A tese que eu defendo é a seguinte: somos o resultado, a consequência genética de todo nosso processo evolutivo, durante, pelo menos, centenas de milhares de anos. Não só disso, mas também de nossa interação com o ambiente no qual nossos ancestrais viveram. Pois bem, parece lógico, simples, mas é uma percepção comumente deixada de lado.

Voltando à ideia de que as mudanças genéticas ocorrem em longos períodos de tempo, veja o que Stephen Jay Gould, um proeminente paleontólogo e biólogo evolucionista, já falecido, postulou: “não ocorreu nenhuma mudança biológica nos humanos em 50 mil anos”. Segundo ele, “tudo o que chamamos de cultura e civilização, nós construímos com o mesmo corpo e o mesmo cérebro.”Mesmo corpo, mesmo cérebro”, eu enfatizo aqui. Claro, ele estava falando em grosso modo, quer dizer, nesses últimos 50 mil anos de evolução humana, nós não sofremos nenhuma mudança genética significativa, verdadeiramente significativa. Pequenas mudanças, claro ocorreram sim. Vou relatar algumas delas para você:

Se você tem olhos azuis, está na companhia de 400 milhões de pessoas, um em cada 20 humanos no mundo. Os outros 19 têm olhos castanhos, verdes ou cinza. Os olhos azuis são relativamente recentes, a mutação que lhes deu origem surgiu no Leste Europeu, entre 6 mil e 10 mil anos atrás. Não se sabe a razão pela qual ela se disseminou. Eles se espalharam rapidamente pela Europa, dominando o norte do continente.

Já a saliva humana contém uma enzima chamada amilase, fabricada pelo gene AMY1, e que digere amidos. Os humanos modernos cujos ancestrais foram agricultores têm mais cópias do AMY1 que aqueles cujos ancestrais eram caçadores, por exemplo. Este reforço digestivo pode ter ajudado a dar início ao cultivo, aos povoados e às sociedades modernas, com o advento da agricultura.
Entre 6 e 8 mil anos atrás, houve uma mutação genética no gene MCM6, permitindo a digestão adequada de lactose, o açúcar do leite. Veja, o ser humano é o único animal que produz esta enzima, a lactase, depois de adulto. Aliás, o ser humano é o único mamífero que toma leite de outros animais depois de adulto. Sem essa mutação genética, nada disso aconteceria.

Bem mais recente, há uma mudança genética que está favorecendo o aparecimento de uma terceira artéria em nosso braço: a artéria mediana, que antes desaparecia durante o desenvolvimento embrionário, mas tem sido cada vez mais observada nas pessoas, mostrando que nossa espécie está em contínua evolução. No final do século 19, 10% da população apresentava essa característica. Hoje, quase 40%! Estamos vendo e vivenciando, ao mesmo tempo, o processo evolutivo humano!

Mas, veja, como disse Stephen Jay Gould, uma cor diferente dos olhos, um fluxo adicional de sangue no braço ou mesmo a capacidade de 30 ou 40% da população mundial continuar tomando leite depois de adulto não é tão substancial, não faz tanta diferença, concorda? Então, preste atenção – a primeira grande conclusão de toda essa nossa jornada até aqui é a seguinte – eu vou somente repetir o que já afirmei: “nossos corpos atuais ainda estão na pré-história, eles têm, pelo menos, 20 mil anos de idade.”

Agora, pense em como era a vida naquela época. Sem ir muito longe, imagine como era a alimentação, como era o dia a dia de um indivíduo, uma família, quais eram os hábitos, como era o ambiente em que nós interagíamos. Tudo isso é importante do ponto de vista epigenético, porque, já que nossa genética é praticamente a mesma, as diferenças entre os estilos de vida de 20.000 antes de Cristo e de 2.000 depois de Cristo é que estão causando os problemas de saúde atual, tanto físicos quanto mentais. Isso faz sentido para você? Para mim faz total sentido!

Eu vou resumir para você, essa reflexão, em 3 pontos de atenção, e vamos explorar cada um deles, combinado? Veja, vamos avaliar as diferenças entre os estilos de vida de agora e de 20.000 anos atrás, nos quesitos “alimentação”, “sol” e “atividade física”.

Um à parte importante: você pode achar até meio cansativo, mas vamos continuar aqui dentro do âmbito da ciência, das referências, para você perceber que eu fui muito fundo em minhas pesquisas, sempre dentro dos melhores ambientes racionais e das evidências científicas. Nada do que eu estou colocando aqui, para você, vem de opiniões, achismos ou especulações. Tudo o que estamos vendo aqui vem da ciência, da melhor ciência, consagrada, demonstrada através de investigações e experimentações, validadas por seus pares nas diversas áreas.

Vamos avaliar agora as diferenças entre os estilos de vida de agora e de 20.000 anos atrás, nos quesitos “alimentação”, “sol” e “atividade física”.

Desses 3 pontos de atenção, vamos começar pelo mais controverso, a alimentação. Por que controverso? Porque boa parte dos nossos problemas de saúde física advém do que comemos, de como comemos e quando comemos. O que é certo e errado em nossa alimentação atual? Eu acredito que, nos últimos 60 ou 70 anos, essa é a pergunta que muita gente tentou responder, e que produziu a quase totalidade das dietas alimentares que estão disseminadas no mercado, e que competem pela atenção daqueles que perceberam que alguma coisa estava errada, definitivamente. Qual é a melhor a ser adotada? A dieta paleolítica? O vegetarianismo? O veganismo? O crudivorismo? Sabe o que é – crudivorismo? É o consumo de alimentos crus, como sementes, frutas, vegetais e grãos. E só. Continuando, temos a dieta mediterrânea, a dieta alcalina, a low carb, a cetogênica, a dieta Dukan… eu ainda poderia desfilar aqui pra você mais umas 15 ou 20, todas reflexos de modismos ou de visões parciais da verdade, da realidade. Então, para fugir de tudo isso, aliás, esse foi meu alvo há uns 6 ou 7 anos, quando eu percebi que estava ficando obeso e precisava perder peso, pelo menos 15-17 quilos, eu decidi não aderir a nenhuma dieta, resolvi estudar. Fui estudar fisiologia humana e, logo depois, paleoantropofisiologia humana. O nome é estranho, mas diz respeito à fisiologia humana nos períodos pré-históricos. É um conhecimento recente e paralelo ao projeto genoma, que busca sequenciar o DNA ancestral e seus desdobramentos fenotípicos. Meus estudos se concentraram nos trabalhos de vários cientistas, entre eles Svaante Pääbo, prêmio Nobel de Medicina de 2022, que dedicou sua carreira ao sequenciamento do genoma neandertal, ele também foi o criador da disciplina científica paleogenômica; Alan Templeton, biólogo evolucionista da Universidade Washington; Miki Ben-Dor e Ran Barkai, do departamento de arqueologia da Universidade de TelAviv, junto com Raphael Sirtoli, do departamento de ciências da saúde da Universidade do Minho, eles publicaram recentemente uma meta-análise espetacular, sobre o nível trófico humano durante o plistoceno; Ben Hesper e Paulien Hogeweg, da Universidade de Utrecht, estes dois últimos são expoentes da teoria da bioinformática (que envolve matemática, tecnologia computacional e biologia molecular).

Então, vamos focar aqui no nível trófico – ele é uma das chaves para o entendimento de nossos hábitos alimentares durante a pré-história. E o que é ‘nível trófico’? Na verdade, se diz “níveis tróficos” – os níveis tróficos nada mais são do que grupos de organismos que possuem hábitos de alimentação semelhantes e que conseguiram seu alimento pelo mesmo número de passos em uma cadeia alimentar. Quando se alimentam de organismos produtores, ocupam o nível dos consumidores primários ou consumidores de primeira ordem; quando se alimentam de consumidores primários, ocupam o nível trófico dos consumidores secundários ou consumidores de segunda ordem, e assim sucessivamente. Todas as plantas, por exemplo, ocupam o mesmo nível trófico, assim como todos os animais herbívoros.

E como esse estudo sobre o nível trófico dos humanos foi conduzido? Bem, ele é complexo, por isso acredito ser completo, fechando todas as possibilidades e as diversas perspectivas de abordagem. Tratou-se de revisar um enorme conjunto de evidências de sistemas biológicos, ecológicos e comportamentais derivados de vários estudos existentes, incluindo evidências de fisiologia e genética humanas, arqueologia, paleontologia, zoologia, entre outras.

A primeira grande conclusão, aparentemente óbvia, é de que a linhagem humana, a linhagem homo, saiu de uma baixa posição de nível trófico para uma posição mais alta e carnívora durante todo o plistoceno. Plistoceno é um período compreendido entre 2,5 milhões de anos até 11.700 anos atrás. Portanto, um período de tempo muito grande em termos de evolução humana. Agora, veja que interessante – depois de atingir um ponto elevado na cadeia alimentar, ele recuou com o advento da agricultura. Essa memória das adaptações dos humanos aos níveis tróficos está embutida em nossa biologia atual, na forma de genética e metabolismo.

Para este artigo não ficar ainda mais longo, eu vou resumir alguns pontos principais dos diversos estudos que culminaram com a meta-análise. São as principais evidências colecionadas.

BIOENERGÉTICA E QUALIDADE DA DIETA

Em comparação com os outros animais, os humanos têm maior necessidade de energia. Historicamente, o tempo envolvido na produção de ferramentas, nos cuidados prolongados com as crianças, entre outras atividades, os “homo” enfrentaram uma intensa pressão seletiva para adquirir energia adequada e consistente de forma eficiente, especialmente para energizar o cérebro. Veja que esse nosso órgão, o cérebro, ele responde por 2% da massa de um indivíduo de 70 quilos, portanto, pesa 1,4 kg em média, mas consome 25% de toda a energia absorvida e 20% de todo o oxigênio inalado. Então, onde encontrar energia suficiente? Nas calorias de origem animal, claro. Os carnívoros gastam menos tempo se alimentando do que os herbívoros – extrair calorias de vegetais é muito mais difícil e custoso para nosso organismo. Uma analogia para você entender – na natureza, as calorias de origem vegetal custam 10 vezes o preço da carne, se esta estiver disponível. As principais evidências mostram que o ser humano, durante toda evolução recente já como homo sapiens sapiens, contrariando todas as suposições vegetarianas, era onívoro, com uma dieta sempre muito variada de vegetais e outros animais. Por exemplo, como os cérebros humanos são três vezes maiores que os cérebros de outros primatas, a densidade energética da dieta humana deve ser muito mais alta. O macronutriente mais denso em energia é a gordura – você extrai dela 9,4 kcal/g , comparado com proteína – 4,7 kcal/g – e carboidratos – 3,7 kcal/g. Assim, a mistura de proteína e gordura contida na caça dos animais, provavelmente, teria proporcionado maior densidade energética. E, portanto, a esperada qualidade da dieta. Agora, veja que interessante: o tamanho do cérebro humano diminuiu nos períodos finais do plistoceno, e isso indica um possível declínio na qualidade calórica da dieta, por conta de um aumento do consumo de vegetais em comparação com a proteína e gordura animal.

AS RESERVAS DE GORDURA E OS PERÍODOS DE JEJUM

Os humanos têm reservas de gordura muito maiores do que os chimpanzés, nossos parentes mais próximos. Só que carregar gordura adicional tem custo de energia e também reduz a velocidade humana em perseguir presas ou escapar de predadores. A maioria dos carnívoros e herbívoros não tem um alto percentual de gordura corporal, porque, diferentemente dos humanos, eles dependem da velocidade para caça ou mesmo fuga. Nesse sentido, os humanos parecem que se adaptaram muito bem ao jejum prolongado, porque a gordura corporal armazenada fornece a maior parte das calorias. Quando estamos em jejum, nosso corpo entra rapidamente no que chamamos de cetose – um processo metabólico onde extraímos a energia da nossa gordura corporal. Essa rápida entrada em cetose permite que os corpos cetônicos substituam a glicose como fonte de energia na maioria dos órgãos, incluindo o cérebro. Durante o jejum, a cetose possibilita a economia muscular, diminuindo substancialmente a necessidade da gliconeogênese – que é a síntese de glicose a partir de proteínas.

Essa chave de mudança da matriz metabólica – dos carboidratos para as gorduras – é considerada uma notável adaptação dos humanos – o uso dos corpos cetônicos pelo cérebro. Isto permitiu ao homem sobreviver por longos períodos de inanição, como a gente vai ver mais adiante, quando avaliarmos os cenários naturais onde se passou nossa evolução, e ainda permitiu que o cérebro evoluísse ao que é hoje, essa máquina extraordinária. Em outras palavras, durante toda a nossa evolução, considerando que os recursos eram sempre escassos, quer dizer, o alimento nunca esteve fartamente disponível na natureza, o ser humano teve de conviver com longos períodos sem se alimentar, em jejum. Isso está em nossa genética, em nosso metabolismo. Os geneticistas, comparando o nosso DNA e de nossos ancestrais, perceberam que, historicamente, a dieta ancestral era muito mais rica em proteína e gordura animal e isso ficou registrado em maiores regiões do genoma ancestral do que no genoma dos seres humanos atuais. Daí se conclui que a nossa dieta se tornou mais vegetariana um pouco antes do advento da agricultura.

A FALTA QUE UMA GELADEIRA FEZ EM NOSSA DIETA

Eu incluí esse estudo aqui mais por curiosidade. Você sabia que a acidez estomacal está muito ligada à proteção contra patógenos? Patógenos são causadores de doenças, por exemplo, as bactérias que degradam animais mortos. Veja só, a acidez estomacal dos grandes carnívoros tem um pH médio de 2,2. Dos onívoros médios, o pH é 2,9. Dos herbívoros, o pH fica entre 5,5 e 7. Nos necrófagos, que se alimentam de animais mortos ou cadáveres em decomposição, o pH médio é 1,3. Agora, veja só, surpreenda-se também: o pH médio do nosso estômago, dos seres humanos, é 1,5! Isto significa que nossos ancestrais eram mais necrófagos do que poderíamos supor! E faz todo sentido: depois de caçar grandes animais, os humanos se reuniam e alimentavam o grupo durante dias, talvez até semanas, com a carne de um elefante ou um bisão. Pra você ter uma ideia, a carne de uma zebra poderia sustentar um grupo de 20 pessoas durante quase 2 semanas. Sem uma geladeira, evidentemente, essa carne entrava em putrefação, produzindo uma gigantesca população de bactérias e seres decompositores que eram também consumidos pelos humanos junto com a carne. Hoje, as alterações substanciais na matriz energética da nossa dieta moderna estão produzindo um efeito colateral péssimo: a partir dos 35-40 anos, nosso estômago está deixando de produzir ácidos em quantidades suficientes para decompor a proteína adequadamente. Só que nós temos estruturas de auxílio ao estômago que são pH-dependentes, como a cárdia, uma válvula entre o esôfago e o estômago. Vou explicar: quando temos alimento sendo digerido no estômago, ele está superácido, ou deveria estar. Estando ácido, com baixo pH, a cárdia está totalmente fechada. Agora, se o pH não está assim tão baixo, a cárdia relaxa, fica entreaberta. O resultado disso? Refluxo. Você tem refluxo? Pense a respeito. Vamos à parte 3? Até já, já, novamente.

Leia a PARTE 3

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