O artigo mais importante que você vai ler em sua vida – PARTE 3

Você já ouviu falar em síndrome metabólica? É uma grave síndrome moderna, que tem como base a resistência de nossas células a um importante hormônio, a insulina. A insulina é responsável por facilitar a entrada da glicose nas células para a produção de energia. Só que hoje, essencialmente, 70-80% da nossa dieta alimentar é baseada em carboidratos simples e açúcares, e isto provoca em nosso corpo a produção de altas doses de insulina. Com o tempo, esses excessos de insulina circulante no sangue, por todo o corpo, provocam uma saturação, uma overdose, e aí as células passam a ter menos receptores para a insulina, causando a resistência. O resultado disso é péssimo: seu corpo passa a ter altas doses de glicose circulante, altas doses de insulina circulante, você fica com o pâncreas estressado, porque ele precisa produzir cada vez mais insulina para romper a resistência e, finalmente, o excesso de açúcar no sangue é convertido pela insulina em – tchãn- tchãn – depósitos de gordura! Ou seja, além de ficar diabético, dependente de medicação, você ainda fica obeso.

Esse processo todo está explicado pela paleoantropofisiologia, veja só. Acompanhe comigo.

Durante um longo período evolutivo, o homem consumiu, majoritariamente, carne, como fonte de calorias, carne e gordura animal. Portanto, nosso metabolismo era muito parecido com o dos carnívoros que têm baixa sensibilidade fisiológica à insulina. Claro, as gorduras animais formam triglicérides que são usados como fonte de energia pelos carnívoros e pouquíssima proteína vira glicose. Os músculos dos eminentemente carnívoros usam ácidos graxos e corpos cetônicos como fontes de energia. Se você come alimentos gordurosos e com poucos carboidratos, seu corpo não precisa produzir e injetar insulina em seu sangue. Nos seres humanos, essa baixa sensibilidade fisiológica à insulina, ou, em outras palavras, essa alta resistência padrão à insulina, teve um motivo adaptativo importante: priorizar a glicose para os tecidos do sistema nervoso central, glândulas sexuais – testículos e ovários – e sangue, deixando os músculos se virarem com os ácidos graxos, com a gordura. A análise genética de várias populações atuais comparadas à nossa ancestralidade mostra o seguinte: com o tempo, as comunidades de agricultores passaram a exibir índices um pouco menores de resistência insulínica, talvez por conta de sua dieta mais vegetal e menos animal. Mesmo assim, essa é uma adaptação não consolidada – ou seja, por padrão, todos nós exibimos moderadamente uma taxa de resistência insulínica. Tá explicado por que em todo mundo, apesar dos esforços contrários, continuam a se elevar as taxas de diabéticos e obesos?

ESTÁ SOBRANDO INTESTINO

A maioria dos alimentos vegetais apresenta uma quantidade significativa de fibras, que são os chamados carboidratos complexos, quase insolúveis. A maioria dos herbívoros extrai grande parte de sua energia da fermentação dessas fibras pelas bactérias intestinais. Um gorila, por exemplo, extrai 60% de sua energia das fibras por esse meio. Hoje, nosso cólon, a parte grande do nosso intestino grosso, ela é 77% menor que o dos primatas, ao mesmo tempo que nosso intestino delgado é 64% maior. É no intestino delgado onde são absorvidos os açúcares, as proteínas, na forma de aminoácidos e as gorduras. Os carnívoros têm, por regra, intestinos delgados proporcionalmente maiores. Veja que essa mudança estrutural, da virada da nossa dieta vegetariana para a onívora ocorreu há muito tempo, há mais de 2 milhões de anos. Contudo, ainda sobrou a necessidade de um intestino grosso robusto, com rica microbiota, para a finalização dos processos fermentativos e digestivos. A dieta ancestral ao longo do tempo sempre foi excepcionalmente variada – legumes, frutas, raízes, tubérculos, folhas, sementes, castanhas, carnes de diversos animais, insetos e larvas – portanto, até bem pouco tempo atrás, cerca de 10 mil anos, nós viramos novamente a chave da mudança, sem o devido tempo necessário para que nosso corpo fizesse um novo ajuste anatômico. Hoje, com uma dieta pobre em variedade e rica em calorias, em carboidratos simples e açúcares, boa parte de nosso intestino grosso tornou-se inútil, mas, não menos importante, porque muitas substâncias e hormônios deveriam ser produzidos ali, para a manutenção da nossa saúde. Então, está sobrando intestino e faltando saúde.

O MILAGRE FEITO PELO FOGO

Há evidências de mudanças em nossa mandíbula e dentes, que passaram a ser menores, por 2 motivos principais: a mastigação reduzida e o cozimento. Eu explico. Herbívoros tem dentes mais robustos, grandes e fortes, porque o processo mastigatório de plantas, excessivamente fibrosas, assim o exige. Nós perdemos a necessidade de dentes grandes e mandíbula robusta porque a carne e a gordura são muito mais macias, e elas entraram em nossa dieta há muito tempo, há mais de 2 milhões de anos. Por outro lado, quando o homo sapiens surgiu, entre 300 ou 400 mil anos atrás, o fogo já era usado há mais de meio milhão de anos. Fogo é um pré-digestor, quer dizer, o cozimento praticamente pré-digere o alimento para nós, porque degrada substâncias complexas em unidades mais simples. Basicamente, é isso. Então, quando submetemos um vegetal fibroso ao cozimento, os carboidratos complexos vão sendo quebrados. A proteína se degrada em aminoácidos. Quando o fogo se tornou mais habitual, ele favoreceu ambos os lados: o consumo de vegetais, que antes demandavam muito tempo de mastigação e agora tinham suas calorias mais disponíveis, e também o consumo de carne e gorduras, porque o cozimento prolongado quebra o colágeno e deixa a carne mais macia.

O fogo, o controle do fogo, portanto, foi o milagre que acelerou o processo evolutivo humano, porque encurtamos muito o tempo demandado para a alimentação e a absorção de energia corporal.

NOSSA BARRIGUINHA PERSISTENTE

Sabe essa cinturinha anabolizada que normalmente temos e odiamos? Ela tem uma explicação histórica-fisiológica também. Trata-se de nossa capacidade aumentada para armazenar energia na forma de gordura, na forma de triglicerídeos. Os animais que absorvem muito pouca glicose diretamente no intestino delgado por conta de sua dieta regular, têm quatro vezes mais adipócitos que os outros animais. Explicando, adipócitos são células especializadas no armazenamento de gorduras. Os humanos se enquadram perfeitamente no padrão de morfologia dos adipócitos carnívoros, de células menores e mais numerosas. Esses números sugerem que o metabolismo energético dos humanos é adaptado a uma dieta em que lipídios e proteínas, em vez de carboidratos, dão uma contribuição importante para o suprimento de energia. E isto está também relacionado com o papel relativo da insulina na regulação dos níveis de glicose no sangue. Peraí, deixa eu explicar melhor esse ponto: um indivíduo adulto de 70 kg tem cerca de 5 litros de sangue circulando no corpo. Em todo esse sangue, estão circulantes também entre 4 e 5 gramas de açúcar, de glicose. Esses números são atuais, quer dizer, são níveis ideiais para uma dieta moderna. Ocorre que uma dieta low carb ou cetogênica provoca uma leve queda dessa concentração de açúcar no sangue. Vamos chamar de glicemia, ok? Vamos chamar de taxa de glicemia essa concentração de açúcar no sangue. Médicos endocrinologistas postulam que a glicemia ideal para um adulto mediano, hoje, seja entre 80 e 100 mg/dL, mas praticantes do low carb ou dieta cetogênica têm glicemia entre 50 e 75 mg/dL, e vivem normalmente, muito bem. Como usam triglicerídeos como fonte massiva de energia para os músculos, que formam boa parte dos tecidos corporais, usam açúcar estritamente para órgãos necessários – tecidos nervosos, glândulas sexuais e sangue, como já comentei. Nesses casos, desses praticantes, a insulina circulante também é baixíssima, entre 0,3 e 3 microU/mL. Só para você ter em comparação, em laboratórios de exames clínicos, a referência varia de 5 a 26 microU de insulina por mililitro de sangue! Isto é uma enormidade! Referência laboratorial significa índices médios de uma população, dos valores ditos ‘normais’ de uma população. Mas quem pode afirmar que esta população é saudável? Percebe? Se, majoritariamente, uma população consome carboidratos e açúcares em sua dieta, é claro que as referências laboratoriais de glicemia e insulina são elevadas. Mas isso se contrapõe, contradiz o que os estudos paleoantropofisiológicos mostram, concorda? Veja só, há um outro dado muito importante que devemos considerar: em um exame de sangue para avaliar sua resistência insulínica ou diabetes, usa-se a hemoglobina glicada. Já vimos que nosso corpo reserva o açúcar para tecidos nervosos e eritrócitos, as células do sangue. Uma das células sanguíneas é a hemoglobina, que tem a importantíssima função de transportar gases, oxigênio e gás carbônico. Se o sangue tem altos índices de glicemia, de açúcar, ele contamina células saudáveis de hemoglobina, que perdem a capacidade de transportar os gases. É a chamada hemoglobina glicada. Quanto maior o índice no sangue de hemoglobina glicada, significa que durante muito mais tempo seu corpo ficou exposto a altas doses de açúcar, e isso é péssimo sinal.

Voltando à nossa cintura, à nossa gordura abdominal persistente, a culpa é desta situação: elevadas taxas de açúcar no sangue, bem como elevadas taxas de insulina. A insulina é lipogênica, quer dizer, é responsável direta por transformar o excesso de açúcar em gordura armazenada. Se você come majoritariamente carboidratos simples – doces, pães, bolos, salgadinhos, pizza, massas -, tenho uma péssima notícia para lhe dar. Percebe?

VITAMINAS – DE ONDE VÊM, PARA ONDE VÃO?

Um último ponto dessa nossa análise da alimentação tem a ver com as vitaminas. Você já ouviu falar que veganos e vegetarianos têm deficiência de vitamina B12? Sim, é verdade, é necessária uma suplementação, porque esta vitamina é obtida a partir de sínteses que ocorrem em nosso intestino, por conta de uma dieta de proteína animal, de carne animal. Ela é muito importante, porque está envolvida na formação das nossas células sanguíneas, atua no sistema nervoso e ajuda na formação dos neurônios, entre outras funções. Pois é. Vitaminas são essenciais às nossas funções metabólicas, e, por conceito, são substâncias que nosso corpo não produz.

Uma dieta variada, supostamente, forneceria as vitaminas que necessitamos. Contudo, há muito tempo que as plantas domesticadas na agricultura vêm sofrendo de um severo declínio do seu valor nutricional por conta da exaustão dos solos. Os micronutrientes não são repostos, então, hoje, comemos plantas cada vez menos nutritivas. Nossos antepassados, nossos ancestrais, tinham essa sorte – uma dieta extremamente variada, de solos ricos em micronutrientes. Dessa forma, até mesmo os animais que faziam parte da dieta pré-histórica, tinham em suas carnes altas doses de micronutrientes. Hoje, não mais. Os herbívoros que usamos em nossa dieta onívora, a carne de bois, cabras, porcos, também estão mais pobres, justamente porque eles se alimentam de vegetais pobres, de rações produzidas a partir de vegetais empobrecidos. Os micronutrientes não são fabricados naqueles organismos – eles têm de ser absorvidos, mas não se pode absorver o que não existe disponível, certo? Ainda assim, os últimos estudos – as evidências científicas – revelaram que os alimentos de origem animal fornecem alguns micronutrientes essenciais para nós, já em suas formas ativas, que as plantas não fornecem, como a vitamina A (retinol), a vitamina K (menaquinona), vitamina B9 (folato), vitamina B12 (cobalamina), vitamina B6 (piridoxina), ferro heme (que é o ferro do tipo mais absorvível para nós) e ômega 3 (EPA e DHA). Portanto, os alimentos de origem animal não são apenas qualitativamente, mas também são quantitativamente superiores aos alimentos vegetais nas escalas de densidade de nutrientes. Até mesmo na questão de macronutrientes, a proteína vegetal é até 40% menos absorvível que a proteína animal, num índice que chamamos de valor biológico dos alimentos. Pode procurar na internet, você vai achar essas referências. Dito isso, eu lhe pergunto: os 8 bilhões de seres humanos vivos atualmente têm à disposição uma alimentação rica em micronutrientes e vitaminas, necessários às funções metabólicas? Claro que não.

UM GENOMA HELIODEPENDENTE

Chegamos ao segundo ponto importante, daquilo que eu chamei de “os 3 pontos de atenção – alimentação, sol e atividade física”. Trata-se da importância do sol em nossa formação genética e todos os seus desdobramentos.

A máquina de fusão nuclear celeste da qual toda a vida na terra é dependente – o sol -, está profundamente ligada à nossa genética. É através da radiação solar que as plantas realizam a fotossíntese, e assim produzem carboidratos e geram oxigênio, consumindo o gás carbônico da atmosfera. Sem fotossíntese não haveria alimento para os demais níveis tróficos na cadeia alimentar – herbívoros, carnívoros, etc. Aliás, com exceção de algumas bactérias, não haveria outro tipo de vida.

Vamos continuar na quarta e última parte? Estaremos juntos de novo, já, já.

Leia a PARTE 4

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