Passando as fezes a limpo – PARTE 2 – Disfunções do sistema digestório e cognição

Preste atenção aqui, veja só isso: nos tempos primitivos, a dieta humana era crua, rica em fibras pouco digeríveis e hipocalórica. Mesmo o fogo depois de ser controlado pelo homem – tem gente que insiste que o fogo foi ‘inventado’, mas como inventar algo que já estava disponível na natureza? – era um luxo mantê-lo aceso para cozinhar. Mais fácil era acendê-lo para assar as caças, e assim uma parte da refeição era realmente cozida de alguma forma. Porque o cozimento de legumes e cereais demandavam outra invenção do homem – as tigelas, vasilhames e mais tarde as panelas. Então, na pré-história, o estômago era adaptado para armazenar uma maior quantidade de alimentos e suportar períodos de jejum prolongado. O volume de alimentos ingeridos deveria ser maior, e o intestino precisava ser muito longo para receber e processar mais alimentos e não eliminar nutrientes essenciais. Agora, a dieta contemporânea é normalmente muito calórica, com poucas fibras, resíduos e é facilmente assimilada. É possível absorvê-la eficientemente já nas porções proximais, quer dizer, iniciais, do intestino, criando picos de absorção de nutrientes.

O fato é que isso é uma verdadeira ameaça aos sinais neuroendócrinos, que dependem da distensão intestinal e da presença de nutrientes no intestino distal, quer dizer, na parte quase final do intestino delgado, para desencadear a secreção dos hormônios intestinais. Em outras palavras, as partes do jejuno e íleo – que são as partes média e final do intestino delgado -, tendem a absorver menos nutrientes, reduzindo a produção de GLP-1. Esse hormônio é muito importante para a regulação do apetite. Os nutrientes que atingem aquele ponto quase terminal do intestino delgado são, portanto, um estímulo fundamental para a liberação do GLP-1, e isso não acontece como devia. Já foi descrito em estudos científicos que diabéticos e obesos apresentam produção de GLP-1 muito reduzida após as refeições. Isso é o contrário nos magros e saudáveis. Veja, o PYY é um outro hormônio peptídico intestinal que também é secretado pelas células da porção final do intestino delgado e início do intestino grosso. Isso deveria ocorrer após as refeições, proporcionalmente à quantidade de calorias ingeridas. Este hormônio, o PYY, diminui a mobilidade intestinal e aumenta a saciedade, o que provoca diminuição do apetite e a ingestão de alimentos.

Então, devido a essa “evolução” na dieta humana, o intestino delgado está, vamos dizer assim, inadequadamente longo, assim como o estômago, que se transformou em uma câmara de estoque inadequadamente grande. Uma dieta rica em carboidratos simples, pobre em gordura, proteínas e fibras, é altamente digerível, quer dizer, facilmente digerível, o que, abre aspas, “deixa sobrando muitos metros de intestino sem função objetiva”, fecha aspas.

Seguindo em frente no sistema digestório, os restos de uma refeição levam entre 9 e 10 horas para chegar ao intestino grosso, onde permanecem por cerca de… 3 dias! Aqui, durante este período, boa parte da água e sais é absorvida e são produzidas e assimiladas algumas vitaminas, como a K e até traços da B12. Na região final do cólon, a massa fecal – os resíduos – se solidifica, se compacta, transformando-se em fezes. Cerca de 30% da parte sólida das fezes é constituída por bactérias vivas e mortas e os 70% restantes são constituídos por sais, muco, fibras (como a celulose) e outras substâncias não digeridas adequadamente. O reto, a parte final do intestino grosso, fica geralmente vazio, enchendo-se de fezes pouco antes da defecação. A distensão provocada pela presença de fezes no local estimula as terminações nervosas do reto, permitindo a expulsão das fezes.

E aqui vai uma pergunta pessoal: você vai ao banheiro 1 vez por dia? Ou 2, ou 3? Claro, para defecar, fazer cocô. Vai? Reflita sobre tudo o que eu disse até aqui. Principalmente no fato de que uma refeição pode levar 4 dias para ser totalmente digerida e expelida. Você também tinha a ideia errada de que isso acontecia em 4 horas? Pois é. Muita gente tem essa percepção. Os cientistas afirmam que essas são métricas erradas, falsas! Ir ao banheiro defecar 2-3 vezes ao dia. Claro que há também o outro lado, ou seja, a constipação, quer dizer, a dificuldade de evacuar, a prisão de ventre. E suas causas mais frequentes são desidratação, baixa ingestão de fibras, sedentarismo e até mesmo efeitos colaterais de medicamentos. Muitas pessoas com esta condição – a prisão de ventre – acabam apelando para o uso de medicamentos e soluções mais perigosas, como a lavagem intestinal.

Veja, de novo, em uma pessoa normal, esse processo digestivo, que envolve mais de 10 órgãos, leva entre 24 e 120 horas! O que faz essa imensa diferença é o consumo de fibras e o tipo delas. A fibra faz você se sentir saciado por mais tempo, também puxa água para o bolo fecal, mantendo-o macio. Fezes ásperas, duras, são, para falar de forma elegante, muito desagradáveis. Fibras também aumentam a massa bacteriana. A água e as bactérias aumentam o volume do bolo fecal, ajudando-o a se mover no trato intestinal. Outras vantagens da fibra: ela desacelera a absorção de açúcares pelo sangue e acumula bactérias do trato digestivo, ajudando você a manter uma microbiota mais saudável. A fibra está muito associada à redução do risco de desenvolver diabetes, de doenças cardíacas, de diversas doenças gastrointestinais e até mesmo cânceres.

Mesmo assim, a maioria de nós não consome o suficiente. No Brasil, a grande maioria dos adultos não está ingerindo nem metade das fibras recomendadas por dia.

Bem, até agora, vimos que a função primordial do sistema digestório é garantir que o corpo receba combustível de qualidade para que suas funções ocorram perfeitamente. Mas esse sistema digestório tem também outras funções, por exemplo, a secreção de hormônios que controlam o metabolismo e controlam até o nosso humor. E mesmo a imunidade! O intestino representa o maior compartimento de todo o nosso sistema imunológico. Existe uma interação bastante importante entre as bactérias, vírus e outros microrganismos normalmente presentes nos alimentos e no intestino e as células do sistema imunológico presentes naquele órgão. A superfície de contato do intestino com esses microrganismos e com os alimentos ingeridos é muito maior até mesmo do que a existente entre a pele e o meio ambiente.

Nesse ponto, devo ressaltar o seguinte: são as fibras as principais fontes de alimento das boas bactérias que temos em nossos intestinos. Por que boas bactérias? Porque a microbiota intestinal, ou flora intestinal, um complexo de espécies de micro-organismos que vivem no trato digestivo, é fundamental para a nossa saúde. Pois é. Trilhões de bactérias, vírus e fungos vivem em nós ou dentro de nós, e manter um relacionamento bom e equilibrado com esses seres é uma vantagem absoluta. Juntos, eles formam o microbioma intestinal, um rico ecossistema que desempenha uma variedade de funções em nosso corpo.

As bactérias em nossos intestinos ajudam a decompor alimentos que naturalmente não conseguimos digerir; elas produzem nutrientes importantes e protegem contra germes nocivos. Contudo, ainda não sabemos exatamente quais as bactérias, os tipos, um intestino robusto precisa, mas sabemos que é importante para um microbioma saudável ter uma boa variedade de espécies bacterianas. E muitos fatores afetam nossos microbioma -incluindo nosso meio ambiente, medicamentos como antibióticos e até mesmo se seu parto, seu nascimento, foi por cesariana ou normal. Embora não possamos controlar todos esses fatores, através de uma boa dieta podemos manipular o equilíbrio de nossos micróbios prestando atenção ao que comemos. A fibra dietética de alimentos como frutas, legumes, nozes e grãos integrais é o melhor combustível para as bactérias intestinais. Quando as bactérias digerem a fibra, elas produzem ácidos graxos de cadeia curta que nutrem a barreira intestinal, melhoram a função imunológica e podem ajudar a prevenir a disbiose e a inflamação crônica, o que reduz o risco de câncer. E quanto mais fibra você ingerir, mais as bactérias que digerem fibras colonizam seu intestino.

Veja, em um estudo recente, os cientistas trocaram as dietas regulares ricas em fibras de um grupo de sul-africanos rurais pelas dietas ricas em gordura e carnes de um grupo de afro-americanos que viviam nas grandes cidades. Após apenas duas semanas de dieta rica em gordura ruim, carboidratos simples e pobre em fibras, bem ao estilo ocidental, o grupo rural africano mostrou aumento considerável da inflamação do cólon, bem como diminuição da produção do butirato – um ácido graxo de cadeia curta importante para diminuir o risco de câncer de cólon. Enquanto isso, o grupo afro-americano que mudou para uma dieta rica em fibras, carboidratos complexos e com baixo teor de gordura ruins teve o resultado oposto. Então, o que há de errado com nossas bactérias intestinais quando comemos alimentos processados ​​com baixo teor de fibras? Está aí, bem explicado, bem exemplificado. Menos fibra significa menos combustível para elas, que, essencialmente, morrem de fome. Isso resulta em menos diversidade e bactérias famintas.

Há também os alimentos ricos em gordura láctea, como leite integral e refrigerantes açucarados, que foram correlacionados com a diminuição da diversidade. Na verdade, algumas dessas bactérias impactadas por uma alimentação ruim podem até começar a se alimentar do próprio revestimento mucoso do intestino, causando permeabilidade intestinal. E isso é grave! Por outro lado, alguns alimentos específicos podem afetar as bactérias intestinais da forma boa, benéfica! Em um estudo recente, os cientistas descobriram que frutas, legumes, chá, café e chocolate amargo estavam correlacionados com o aumento da diversidade bacteriana por conterem polifenóis, que são compostos antioxidantes naturais. E não é só “o quê”, mas o “como” – como a comida é preparada também importa. Alimentos frescos, minimamente processados, geralmente têm mais fibras e fornecem melhor combustível. Assim, legumes levemente cozidos no vapor, salteados ou crus são tipicamente mais benéficos do que pratos fritos ou extensamente cozidos.

Existem também maneiras de preparar alimentos que podem realmente introduzir boas bactérias, também conhecidas como probióticos, em seu intestino. Alimentos fermentados estão repletos de bactérias probióticas úteis, como lactobacilos e bifidobactérias. Elas eram originalmente usadas como forma de conservar alimentos antes da invenção da refrigeração, através da fermentação, que continua sendo uma prática tradicional em todo o mundo. Alimentos como kimchi, chucrute, tempeh, e kombucha fornecem variedade e vitalidade de bactérias boas às dietas. O iogurte é outro alimento fermentado que pode introduzir bactérias úteis em nosso intestino. Isso não significa necessariamente que todo iogurte seja bom para nós. Marcas com muito açúcar e poucas bactérias não ajudam! Isso se sabe há muito tempo. Mesmo

em 1895, um cientista russo, Elie Metchnikoff, ficou fascinado ao observar a influência de bactérias intestinais na saúde e longevidade. Ele sugeriu, em seus estudos, que as pessoas de partes da Europa Oriental viviam mais porque comiam muitos alimentos fermentados, contendo lactobacilos vivos. Essa teoria foi ignorada na época e somente muitas décadas depois é que os cientistas reconheceram a importância da microbiota na regulação de doenças e na capacidade cognitiva.

Vamos explorar isso agora? Intestino e cognição? Pois mesmo o cérebro em sua cabeça e o seu intestino estão permanentemente trocando informações. E como eles fazem isso? Se lhe perguntassem onde está localizado o sistema nervoso do corpo humano, você provavelmente responderia somente no cérebro e na medula espinhal, certo? Mas, além do sistema nervoso central, que consiste nesses dois órgãos, nossos corpos também têm o sistema nervoso entérico, um revestimento de dupla camada, com mais de 100 milhões de células nervosas, que abrange nosso intestino, do esôfago ao reto. O sistema nervoso entérico, como é chamado, tem sido apontado como o “segundo cérebro”. É por isso que apenas pensar em comida pode levar seu estômago a começar a secretar enzimas, ou mesmo aqueles que têm pavor de falar em público, ao terem de fazer um discurso, sentem-se totalmente enjoados.

Até recentemente, os cientistas pensavam que esses dois sistemas se comunicavam apenas por meio de hormônios produzidos por células enteroendócrinas espalhadas por todo o revestimento do intestino. Depois de detectar alimentos ou bactérias, as células liberariam mensageiros moleculares que estimulariam o sistema nervoso a modular o comportamento. Mas acontece que o processo pode ser muito mais direto. Um neurocientista do intestino-cérebro da Duke University, Diego Bohórquez, descobriu que algumas células enteroendócrinas também fazem contato físico estreito, formando sinapses, com o sistema nervoso entérico, com cerca de 100 milhões de neurônios – quase o mesmo número que toda a medula espinhal. Por curiosidade, esses mesmos 100 milhões de neurônios produzem quase 95% de toda a serotonina que circula pelo corpo – conhecida como o ‘hormônio da felicidade’, entre suas funções está a regulagem do ritmo cardíaco, do sono, do apetite, do humor, da memória e da temperatura do corpo.

Essa revelação, da relação íntima entre intestino e cérebro, abre a porta para repensar como isso nos afeta e pode um dia mudar a forma como tratamos condições físicas e mentais tão variadas quanto obesidade, anorexia, síndrome do intestino irritável, autismo e TEPT – transtorno de estresse pós-traumático.

Veja só: de fato, há um eixo intestino-cérebro chamado, em inglês, de GBA – Gut-Brain-Axis, que consiste na comunicação bidirecional entre o sistema nervoso central e o entérico, ligando os centros emocionais e cognitivos do cérebro com as funções intestinais periféricas. Isso é uma descoberta sensacional! E os avanços recentes na pesquisa descreveram a importância da microbiota intestinal em influenciar essas interações. Essa influência mútua entre microbiota e o GBA parece ser bidirecional, ou seja, acontece através da sinalização da microbiota intestinal para o cérebro e do cérebro para a microbiota intestinal por meio de ligações neurais, endócrinas, imunes e humorais. Várias evidências disponíveis são suporte à existência dessas interações, bem como os possíveis mecanismos fisiopatológicos envolvidos. Na prática clínica, a evidência de interações microbiota-GBA vem da associação da disbiose, o desequilíbrio da microbiota, com distúrbios do sistema nervoso central, como comportamentos depressivos de ansiedade e distúrbios gastrointestinais funcionais.

Em particular, a síndrome do intestino irritável pode ser considerada um exemplo da ruptura da saúde dessas relações complexas. Escute só essa: pesquisadores brasileiros também descreveram o mecanismo pelo qual desequilíbrio entre espécies bacterianas que vivem no intestino favorecem a predisposição ao Mal de Parkinson e outros distúrbios neurodegenerativos. Tudo isso coloca em perspectiva nosso estilo de vida moderno, principalmente a pouca importância dada à alimentação e aos hábitos alimentares, que juntos estão nos adoecendo, física e mentalmente.

Continua na ‘parte 3’

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