Passando as fezes a limpo – PARTE 3 – Finalmente as fezes!

Acho que está na hora de voltar a falar das fezes, não? Claro que ainda há muito a se falar do sistema digestório – saúde, disfunções, patologias – por exemplo, a doença celíaca -, parasitoses, mas deixaremos tudo isso para outros textos.

Até aqui, eu creio que você percebeu o extremo valor do sistema digestório, e por isso entende agora a importância do que está comendo, como está comendo e quando. Certo?

Pois então, o resultado do que você come, depois de passar por este complexo sistema mecânico-físico-químico, é aquilo que o corpo expurga, expele, expulsa. As fezes.

Vamos olhar diretamente para elas, fixamente. Na sua próxima ida ao banheiro para “fazer um número 2”, como diziam meus filhos, eu quero que você observe 4 características: a forma, a consistência, a cor e o cheiro. É, eu sei, não é a coisa mais agradável do mundo, mas vamos lá, isso pode lhe dar uma ideia de alguns pontos interessantes sobre sua saúde, seu estado de saúde.

Vamos entender o que são fezes normais, de uma pessoa saudável. As fezes normais têm formato de salsicha ou banana, não necessitam de esforço para a evacuação, não são ressecadas ou amolecidas, tem cor castanha, não apresentam sangue, e o ato de evacuar é rápido e expressa alívio imediato.

Quanto à forma, há uma escala de observação, chamada de ‘Escala de Bristol’, com 7 tipos básicos que podem apresentar subtipos, foi desenvolvida pelo Dr. Ken Heaton na Universidade de Bristol, por isso o nome. Vamos a eles. Vou descrever para você… Ufa, que nojo, hein? Hehehe, tente imaginar.

O ‘tipo 1’ apresenta caroços duros, pequenas bolinhas separadas. De cara, é sinal de constipação, prisão de ventre, severa; o ‘tipo 2’ tem formas irregulares, segmentadas em forma de uma salsicha bastante encaroçada. Indica leve prisão de ventre e trânsito digestivo bastante lento; o ‘tipo 3’ tem forma de salsicha, é mais lisa, mas com algumas fissuras ou ranhuras na superfície. É fruto de uma evacuação normal, com ótimo trânsito intestinal, talvez uma leve desidratação; o ‘tipo 4’ é alongada, lisa e macia. Indicação de evacuação normal, sinal de ótimo trânsito intestinal; o ‘tipo 5’ mostra pedaços macios separados, com bordas bem nítidas. É um indicativo de provável diarreia ou irritabilidade intestinal; o ‘tipo 6’ são pedaços bem moles, com bordas mal definidas, as fezes são bem pastosas, com alguns pequenos caroços. É diarreia, com trânsito intestinal bastante comprometido; por fim, o ‘tipo 7’ são fezes líquidas, sem pedaços sólidos, é diarreia, com trânsito intestinal bastante desregulado. Via de regra, o ser humano deve evacuar todos os dias, mas nem sempre é assim que acontece.

Se a frequência for mais espaçada, a cada dois ou três dias, e as fezes estiverem dentro dos parâmetros da normalidade, está tudo bem.

Entretanto, caso o aspecto das fezes não represente os tipos 3 ou 4 da Escala de Bristol e o número de evacuações na semana for menor, é preciso acender o sinal de alerta.

Quanto à cor, as fezes podem apresentar 5 grupos de colorações, incluindo seus sub tons: esverdeadas, amareladas, avermelhadas, muito claras ou muito escuras.

Fezes muito esverdeadas podem significar um trânsito intestinal muito rápido – a cor esverdeada é a presença da bile, e não dá tempo de bactérias processarem corretamente. Situações de estresse, intestino irritável ou infecção bacteriana causam isso.

Fezes amareladas podem ser indicativo de problemas na digestão de gorduras, ductos biliares entupidos ou mesmo na composição do suco pancreático. Também podem indicar infecção intestinal, acompanhadas de dor abdominal, febre e diarreia.

Fezes avermelhadas podem ser por simples ingestão de beterrabas – algumas pessoas simplesmente não conseguem processar o pigmento arroxeado chamado betanina – ou causas mais sérias, como a presença de sangue nas fezes. Isso pode ser devido a doenças como Chron, colite ulcerativa, câncer intestinal ou hemorroidas. Neste último caso, o sangramento deixa uma coloração de sangue vivo, vermelho vivo.

Fezes muito escuras têm associação à falta de uma adequada digestão de proteínas ou mesmo sangramento em algum órgão do sistema digestório, como úlceras gástricas e varizes no esôfago.

Por fim, fezes muito claras, assim como as amareladas, têm a ver com problemas na digestão de gorduras, doenças no fígado, nas vias biliares e também anemia.

Você reparou que suas fezes tiveram alteração radical de cor ultimamente? Se a coloração normal não voltar em até duas semanas, procure um médico. Do mesmo jeito que sentir fraqueza, tontura, febre, ou mesmo tiver uma rápida perda de peso sem razão aparente. Aí, sim, vá ao médico ainda mais rapidamente, não espere.

Já falamos da forma, consistência, cor. Agora, vamos ao cheiro.

Um odor meio fétido, mau cheiroso, é normal. Porque as bactérias acabam gerando compostos sulfurosos durante a digestão, e também depende muito do que é ingerido. Por exemplo, um consumo exagerado de carne vermelha e comida mais condimentada podem gerar fezes com odor mais acentuado. Má absorção de nutrientes também. Aliás, esse é um bom sinal da disbiose, do equilíbrio de sua flora intestinal.

Agora, quando você vai ao banheiro “fazer o número 2” e sua família é obrigada a sair de casa, aumente a atenção – o problema pode ser quase lá no início, na quebra das proteínas animais, ainda no estômago. Essa quebra incompleta pode gerar um subproduto chamado cadaverina, uma molécula produzida pela hidrólise, comum na putrefação de tecidos orgânicos de corpos em decomposição. Você entendeu, né? Cadáver, cadaverina, mau cheiro. O processo também tem a ver com certas fermentações bacterianas intestinais, mas o fato é de que, bastante provavelmente, seu estômago está liberando HCl, ácido clorídrico, de forma insuficiente. Se você sofre de fezes fétidas e refluxo noturno, é quase certeza disso, pode conversar com seu médico a respeito, ok? Ele deverá lhe prescrever uma substância que auxilie no aumento do ambiente ácido, ou, de pH mais baixo, em seu estômago.

Bom, agora que você deu uma boa olhada nas fezes, o que fará? Claro, vai apertar o dedo no botão da descarga e ficar olhando aquela sua produção estranha ir embora água abaixo, certo?

Errado! “Pelamordedeus”! Jamais faça isso! Jamais olhe suas fezes indo embora pela privada! Se você me disser isso pessoalmente, eu terei muito receio de apertar suas mãos ou cumprimentar você mais proximamente. Porque você deve ser uma pessoa que carrega constantemente uma película invisível de bactérias por todo o corpo – rosto, cabelos, pele, roupa! Seu banheiro deve ser um ambiente contaminado – sua escova de dentes, pente, escova de cabelos, e, mais grave ainda, se você usa lentes de contato e deixa a caixinha sobre a pia do banheiro para facilitar o uso e retirada. É um baita perigo de contaminação… dos olhos!

Olha, deixa eu lhe contar sobre um estudo feito no Reino Unido por uma universidade de lá, sobre a saúde e higiene dos cidadãos médios ingleses, há quase 20 anos.

De forma geral, quase 1/3 da população estudada tinha rastros de coliformes fecais, ou coliformes termotolerantes no jargão técnico atual, por todo o corpo. No aprofundamento da pesquisa, viram que isso se devia a 2 hábitos: na forma como tomavam banho e como davam descarga após defecar. No primeiro caso, é um processo intuitivo: você pega o sabonete e logo vai para aquelas áreas que supostamente são mais ‘sujas’, como genitais, nádegas e embaixo dos braços. Ao lavar as nádegas e seu recôndito, você contamina o… sabonete! E depois espalha as bactérias pelas demais partes do corpo. Portanto, primeira coisa a mudar, se você faz o mesmo: comece por lavar a cabeça, os cabelos, desça para as áreas descobertas até os pés, depois as axilas, genitais, nádegas e o recôndito. Não preciso aqui falar o nome do dito ‘cujo’. Claro, logo após se ensaboar, seja cuidadoso com quem for o próximo no banho – lave bem seu sabonete, para não deixar vestígios de coliformes termotolerantes.

O segundo hábito percebido pelo estudo é exatamente a questão de dar adeus às massas fecais! Vê-las indo embora, no redemoinho de água da privada. Ocorre que a descarga é tão violenta que uma parte da água se transforma em nuvem de partículas ao bater no fundo e encontrar as fezes. Uma nuvem gasosa de água e resíduos fecais. Essa nuvem chegaria a subir até 4 metros de altura se tivesse liberdade, mas ela encontra você, seu rosto, seu corpo, as paredes e o teto do banheiro, por onde desliza, é rebatida e se espalha. Então, você acaba produzindo um ambiente totalmente contaminado – tudo o que fica exposto sobre a pia, como escova de dentes e cabelo, toalhas de rosto e banho, sua caixinha das lentes de contato, maquiagem, potes de perfume, desodorante, etc.

Entendeu? Como dizia minha avó, “quer que eu desenhe para ficar mais claro”?

Olhe, não se trata de má-fé, quer dizer, não fazemos corretamente muitas coisas porque, simplesmente, não refletimos sobre elas e seus desdobramentos, não é verdade?

Mas ainda bem que temos pessoas que nos alertam! Muito cedo meu pai, que era professor de biologia, me contou sobre a utilidade da tampa da privada. “Se está lá”, dizia ele, “tem um bom motivo para usá-la! Tem que manter fechada!”

Verdade.

Os primeiros cintos de segurança apareceram nas carruagens de cavalos, em 1885. A grande revolução dos cintos, o modelo de 3 pontas, já estava em circulação nos automóveis na década de 1960. Contudo, o cinto de segurança só se tornou obrigatório efetivamente no Brasil em 1994. Se tal medida tivesse sido tomada antes, 70% das mortes nos acidentes poderiam ter tido outro final.

Falando em final, vamos ficar por aqui? Já teve muuuita informação pra você digerir, não é verdade? Hehehe, desculpe o trocadilho.

Mas continuaremos a falar de intestino e sistema digestório em outros textos. Até lá. Um abraço!

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