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Passando as fezes a limpo – PARTE 3 – Finalmente as fezes!

Acho que está na hora de voltar a falar das fezes, não? Claro que ainda há muito a se falar do sistema digestório – saúde, disfunções, patologias – por exemplo, a doença celíaca -, parasitoses, mas deixaremos tudo isso para outros textos.

Até aqui, eu creio que você percebeu o extremo valor do sistema digestório, e por isso entende agora a importância do que está comendo, como está comendo e quando. Certo?

Pois então, o resultado do que você come, depois de passar por este complexo sistema mecânico-físico-químico, é aquilo que o corpo expurga, expele, expulsa. As fezes.

Vamos olhar diretamente para elas, fixamente. Na sua próxima ida ao banheiro para “fazer um número 2”, como diziam meus filhos, eu quero que você observe 4 características: a forma, a consistência, a cor e o cheiro. É, eu sei, não é a coisa mais agradável do mundo, mas vamos lá, isso pode lhe dar uma ideia de alguns pontos interessantes sobre sua saúde, seu estado de saúde.

Vamos entender o que são fezes normais, de uma pessoa saudável. As fezes normais têm formato de salsicha ou banana, não necessitam de esforço para a evacuação, não são ressecadas ou amolecidas, tem cor castanha, não apresentam sangue, e o ato de evacuar é rápido e expressa alívio imediato.

Quanto à forma, há uma escala de observação, chamada de ‘Escala de Bristol’, com 7 tipos básicos que podem apresentar subtipos, foi desenvolvida pelo Dr. Ken Heaton na Universidade de Bristol, por isso o nome. Vamos a eles. Vou descrever para você… Ufa, que nojo, hein? Hehehe, tente imaginar.

O ‘tipo 1’ apresenta caroços duros, pequenas bolinhas separadas. De cara, é sinal de constipação, prisão de ventre, severa; o ‘tipo 2’ tem formas irregulares, segmentadas em forma de uma salsicha bastante encaroçada. Indica leve prisão de ventre e trânsito digestivo bastante lento; o ‘tipo 3’ tem forma de salsicha, é mais lisa, mas com algumas fissuras ou ranhuras na superfície. É fruto de uma evacuação normal, com ótimo trânsito intestinal, talvez uma leve desidratação; o ‘tipo 4’ é alongada, lisa e macia. Indicação de evacuação normal, sinal de ótimo trânsito intestinal; o ‘tipo 5’ mostra pedaços macios separados, com bordas bem nítidas. É um indicativo de provável diarreia ou irritabilidade intestinal; o ‘tipo 6’ são pedaços bem moles, com bordas mal definidas, as fezes são bem pastosas, com alguns pequenos caroços. É diarreia, com trânsito intestinal bastante comprometido; por fim, o ‘tipo 7’ são fezes líquidas, sem pedaços sólidos, é diarreia, com trânsito intestinal bastante desregulado. Via de regra, o ser humano deve evacuar todos os dias, mas nem sempre é assim que acontece.

Se a frequência for mais espaçada, a cada dois ou três dias, e as fezes estiverem dentro dos parâmetros da normalidade, está tudo bem.

Entretanto, caso o aspecto das fezes não represente os tipos 3 ou 4 da Escala de Bristol e o número de evacuações na semana for menor, é preciso acender o sinal de alerta.

Quanto à cor, as fezes podem apresentar 5 grupos de colorações, incluindo seus sub tons: esverdeadas, amareladas, avermelhadas, muito claras ou muito escuras.

Fezes muito esverdeadas podem significar um trânsito intestinal muito rápido – a cor esverdeada é a presença da bile, e não dá tempo de bactérias processarem corretamente. Situações de estresse, intestino irritável ou infecção bacteriana causam isso.

Fezes amareladas podem ser indicativo de problemas na digestão de gorduras, ductos biliares entupidos ou mesmo na composição do suco pancreático. Também podem indicar infecção intestinal, acompanhadas de dor abdominal, febre e diarreia.

Fezes avermelhadas podem ser por simples ingestão de beterrabas – algumas pessoas simplesmente não conseguem processar o pigmento arroxeado chamado betanina – ou causas mais sérias, como a presença de sangue nas fezes. Isso pode ser devido a doenças como Chron, colite ulcerativa, câncer intestinal ou hemorroidas. Neste último caso, o sangramento deixa uma coloração de sangue vivo, vermelho vivo.

Fezes muito escuras têm associação à falta de uma adequada digestão de proteínas ou mesmo sangramento em algum órgão do sistema digestório, como úlceras gástricas e varizes no esôfago.

Por fim, fezes muito claras, assim como as amareladas, têm a ver com problemas na digestão de gorduras, doenças no fígado, nas vias biliares e também anemia.

Você reparou que suas fezes tiveram alteração radical de cor ultimamente? Se a coloração normal não voltar em até duas semanas, procure um médico. Do mesmo jeito que sentir fraqueza, tontura, febre, ou mesmo tiver uma rápida perda de peso sem razão aparente. Aí, sim, vá ao médico ainda mais rapidamente, não espere.

Já falamos da forma, consistência, cor. Agora, vamos ao cheiro.

Um odor meio fétido, mau cheiroso, é normal. Porque as bactérias acabam gerando compostos sulfurosos durante a digestão, e também depende muito do que é ingerido. Por exemplo, um consumo exagerado de carne vermelha e comida mais condimentada podem gerar fezes com odor mais acentuado. Má absorção de nutrientes também. Aliás, esse é um bom sinal da disbiose, do equilíbrio de sua flora intestinal.

Agora, quando você vai ao banheiro “fazer o número 2” e sua família é obrigada a sair de casa, aumente a atenção – o problema pode ser quase lá no início, na quebra das proteínas animais, ainda no estômago. Essa quebra incompleta pode gerar um subproduto chamado cadaverina, uma molécula produzida pela hidrólise, comum na putrefação de tecidos orgânicos de corpos em decomposição. Você entendeu, né? Cadáver, cadaverina, mau cheiro. O processo também tem a ver com certas fermentações bacterianas intestinais, mas o fato é de que, bastante provavelmente, seu estômago está liberando HCl, ácido clorídrico, de forma insuficiente. Se você sofre de fezes fétidas e refluxo noturno, é quase certeza disso, pode conversar com seu médico a respeito, ok? Ele deverá lhe prescrever uma substância que auxilie no aumento do ambiente ácido, ou, de pH mais baixo, em seu estômago.

Bom, agora que você deu uma boa olhada nas fezes, o que fará? Claro, vai apertar o dedo no botão da descarga e ficar olhando aquela sua produção estranha ir embora água abaixo, certo?

Errado! “Pelamordedeus”! Jamais faça isso! Jamais olhe suas fezes indo embora pela privada! Se você me disser isso pessoalmente, eu terei muito receio de apertar suas mãos ou cumprimentar você mais proximamente. Porque você deve ser uma pessoa que carrega constantemente uma película invisível de bactérias por todo o corpo – rosto, cabelos, pele, roupa! Seu banheiro deve ser um ambiente contaminado – sua escova de dentes, pente, escova de cabelos, e, mais grave ainda, se você usa lentes de contato e deixa a caixinha sobre a pia do banheiro para facilitar o uso e retirada. É um baita perigo de contaminação… dos olhos!

Olha, deixa eu lhe contar sobre um estudo feito no Reino Unido por uma universidade de lá, sobre a saúde e higiene dos cidadãos médios ingleses, há quase 20 anos.

De forma geral, quase 1/3 da população estudada tinha rastros de coliformes fecais, ou coliformes termotolerantes no jargão técnico atual, por todo o corpo. No aprofundamento da pesquisa, viram que isso se devia a 2 hábitos: na forma como tomavam banho e como davam descarga após defecar. No primeiro caso, é um processo intuitivo: você pega o sabonete e logo vai para aquelas áreas que supostamente são mais ‘sujas’, como genitais, nádegas e embaixo dos braços. Ao lavar as nádegas e seu recôndito, você contamina o… sabonete! E depois espalha as bactérias pelas demais partes do corpo. Portanto, primeira coisa a mudar, se você faz o mesmo: comece por lavar a cabeça, os cabelos, desça para as áreas descobertas até os pés, depois as axilas, genitais, nádegas e o recôndito. Não preciso aqui falar o nome do dito ‘cujo’. Claro, logo após se ensaboar, seja cuidadoso com quem for o próximo no banho – lave bem seu sabonete, para não deixar vestígios de coliformes termotolerantes.

O segundo hábito percebido pelo estudo é exatamente a questão de dar adeus às massas fecais! Vê-las indo embora, no redemoinho de água da privada. Ocorre que a descarga é tão violenta que uma parte da água se transforma em nuvem de partículas ao bater no fundo e encontrar as fezes. Uma nuvem gasosa de água e resíduos fecais. Essa nuvem chegaria a subir até 4 metros de altura se tivesse liberdade, mas ela encontra você, seu rosto, seu corpo, as paredes e o teto do banheiro, por onde desliza, é rebatida e se espalha. Então, você acaba produzindo um ambiente totalmente contaminado – tudo o que fica exposto sobre a pia, como escova de dentes e cabelo, toalhas de rosto e banho, sua caixinha das lentes de contato, maquiagem, potes de perfume, desodorante, etc.

Entendeu? Como dizia minha avó, “quer que eu desenhe para ficar mais claro”?

Olhe, não se trata de má-fé, quer dizer, não fazemos corretamente muitas coisas porque, simplesmente, não refletimos sobre elas e seus desdobramentos, não é verdade?

Mas ainda bem que temos pessoas que nos alertam! Muito cedo meu pai, que era professor de biologia, me contou sobre a utilidade da tampa da privada. “Se está lá”, dizia ele, “tem um bom motivo para usá-la! Tem que manter fechada!”

Verdade.

Os primeiros cintos de segurança apareceram nas carruagens de cavalos, em 1885. A grande revolução dos cintos, o modelo de 3 pontas, já estava em circulação nos automóveis na década de 1960. Contudo, o cinto de segurança só se tornou obrigatório efetivamente no Brasil em 1994. Se tal medida tivesse sido tomada antes, 70% das mortes nos acidentes poderiam ter tido outro final.

Falando em final, vamos ficar por aqui? Já teve muuuita informação pra você digerir, não é verdade? Hehehe, desculpe o trocadilho.

Mas continuaremos a falar de intestino e sistema digestório em outros textos. Até lá. Um abraço!

Passando as fezes a limpo – PARTE 2 – Disfunções do sistema digestório e cognição

Preste atenção aqui, veja só isso: nos tempos primitivos, a dieta humana era crua, rica em fibras pouco digeríveis e hipocalórica. Mesmo o fogo depois de ser controlado pelo homem – tem gente que insiste que o fogo foi ‘inventado’, mas como inventar algo que já estava disponível na natureza? – era um luxo mantê-lo aceso para cozinhar. Mais fácil era acendê-lo para assar as caças, e assim uma parte da refeição era realmente cozida de alguma forma. Porque o cozimento de legumes e cereais demandavam outra invenção do homem – as tigelas, vasilhames e mais tarde as panelas. Então, na pré-história, o estômago era adaptado para armazenar uma maior quantidade de alimentos e suportar períodos de jejum prolongado. O volume de alimentos ingeridos deveria ser maior, e o intestino precisava ser muito longo para receber e processar mais alimentos e não eliminar nutrientes essenciais. Agora, a dieta contemporânea é normalmente muito calórica, com poucas fibras, resíduos e é facilmente assimilada. É possível absorvê-la eficientemente já nas porções proximais, quer dizer, iniciais, do intestino, criando picos de absorção de nutrientes.

O fato é que isso é uma verdadeira ameaça aos sinais neuroendócrinos, que dependem da distensão intestinal e da presença de nutrientes no intestino distal, quer dizer, na parte quase final do intestino delgado, para desencadear a secreção dos hormônios intestinais. Em outras palavras, as partes do jejuno e íleo – que são as partes média e final do intestino delgado -, tendem a absorver menos nutrientes, reduzindo a produção de GLP-1. Esse hormônio é muito importante para a regulação do apetite. Os nutrientes que atingem aquele ponto quase terminal do intestino delgado são, portanto, um estímulo fundamental para a liberação do GLP-1, e isso não acontece como devia. Já foi descrito em estudos científicos que diabéticos e obesos apresentam produção de GLP-1 muito reduzida após as refeições. Isso é o contrário nos magros e saudáveis. Veja, o PYY é um outro hormônio peptídico intestinal que também é secretado pelas células da porção final do intestino delgado e início do intestino grosso. Isso deveria ocorrer após as refeições, proporcionalmente à quantidade de calorias ingeridas. Este hormônio, o PYY, diminui a mobilidade intestinal e aumenta a saciedade, o que provoca diminuição do apetite e a ingestão de alimentos.

Então, devido a essa “evolução” na dieta humana, o intestino delgado está, vamos dizer assim, inadequadamente longo, assim como o estômago, que se transformou em uma câmara de estoque inadequadamente grande. Uma dieta rica em carboidratos simples, pobre em gordura, proteínas e fibras, é altamente digerível, quer dizer, facilmente digerível, o que, abre aspas, “deixa sobrando muitos metros de intestino sem função objetiva”, fecha aspas.

Seguindo em frente no sistema digestório, os restos de uma refeição levam entre 9 e 10 horas para chegar ao intestino grosso, onde permanecem por cerca de… 3 dias! Aqui, durante este período, boa parte da água e sais é absorvida e são produzidas e assimiladas algumas vitaminas, como a K e até traços da B12. Na região final do cólon, a massa fecal – os resíduos – se solidifica, se compacta, transformando-se em fezes. Cerca de 30% da parte sólida das fezes é constituída por bactérias vivas e mortas e os 70% restantes são constituídos por sais, muco, fibras (como a celulose) e outras substâncias não digeridas adequadamente. O reto, a parte final do intestino grosso, fica geralmente vazio, enchendo-se de fezes pouco antes da defecação. A distensão provocada pela presença de fezes no local estimula as terminações nervosas do reto, permitindo a expulsão das fezes.

E aqui vai uma pergunta pessoal: você vai ao banheiro 1 vez por dia? Ou 2, ou 3? Claro, para defecar, fazer cocô. Vai? Reflita sobre tudo o que eu disse até aqui. Principalmente no fato de que uma refeição pode levar 4 dias para ser totalmente digerida e expelida. Você também tinha a ideia errada de que isso acontecia em 4 horas? Pois é. Muita gente tem essa percepção. Os cientistas afirmam que essas são métricas erradas, falsas! Ir ao banheiro defecar 2-3 vezes ao dia. Claro que há também o outro lado, ou seja, a constipação, quer dizer, a dificuldade de evacuar, a prisão de ventre. E suas causas mais frequentes são desidratação, baixa ingestão de fibras, sedentarismo e até mesmo efeitos colaterais de medicamentos. Muitas pessoas com esta condição – a prisão de ventre – acabam apelando para o uso de medicamentos e soluções mais perigosas, como a lavagem intestinal.

Veja, de novo, em uma pessoa normal, esse processo digestivo, que envolve mais de 10 órgãos, leva entre 24 e 120 horas! O que faz essa imensa diferença é o consumo de fibras e o tipo delas. A fibra faz você se sentir saciado por mais tempo, também puxa água para o bolo fecal, mantendo-o macio. Fezes ásperas, duras, são, para falar de forma elegante, muito desagradáveis. Fibras também aumentam a massa bacteriana. A água e as bactérias aumentam o volume do bolo fecal, ajudando-o a se mover no trato intestinal. Outras vantagens da fibra: ela desacelera a absorção de açúcares pelo sangue e acumula bactérias do trato digestivo, ajudando você a manter uma microbiota mais saudável. A fibra está muito associada à redução do risco de desenvolver diabetes, de doenças cardíacas, de diversas doenças gastrointestinais e até mesmo cânceres.

Mesmo assim, a maioria de nós não consome o suficiente. No Brasil, a grande maioria dos adultos não está ingerindo nem metade das fibras recomendadas por dia.

Bem, até agora, vimos que a função primordial do sistema digestório é garantir que o corpo receba combustível de qualidade para que suas funções ocorram perfeitamente. Mas esse sistema digestório tem também outras funções, por exemplo, a secreção de hormônios que controlam o metabolismo e controlam até o nosso humor. E mesmo a imunidade! O intestino representa o maior compartimento de todo o nosso sistema imunológico. Existe uma interação bastante importante entre as bactérias, vírus e outros microrganismos normalmente presentes nos alimentos e no intestino e as células do sistema imunológico presentes naquele órgão. A superfície de contato do intestino com esses microrganismos e com os alimentos ingeridos é muito maior até mesmo do que a existente entre a pele e o meio ambiente.

Nesse ponto, devo ressaltar o seguinte: são as fibras as principais fontes de alimento das boas bactérias que temos em nossos intestinos. Por que boas bactérias? Porque a microbiota intestinal, ou flora intestinal, um complexo de espécies de micro-organismos que vivem no trato digestivo, é fundamental para a nossa saúde. Pois é. Trilhões de bactérias, vírus e fungos vivem em nós ou dentro de nós, e manter um relacionamento bom e equilibrado com esses seres é uma vantagem absoluta. Juntos, eles formam o microbioma intestinal, um rico ecossistema que desempenha uma variedade de funções em nosso corpo.

As bactérias em nossos intestinos ajudam a decompor alimentos que naturalmente não conseguimos digerir; elas produzem nutrientes importantes e protegem contra germes nocivos. Contudo, ainda não sabemos exatamente quais as bactérias, os tipos, um intestino robusto precisa, mas sabemos que é importante para um microbioma saudável ter uma boa variedade de espécies bacterianas. E muitos fatores afetam nossos microbioma -incluindo nosso meio ambiente, medicamentos como antibióticos e até mesmo se seu parto, seu nascimento, foi por cesariana ou normal. Embora não possamos controlar todos esses fatores, através de uma boa dieta podemos manipular o equilíbrio de nossos micróbios prestando atenção ao que comemos. A fibra dietética de alimentos como frutas, legumes, nozes e grãos integrais é o melhor combustível para as bactérias intestinais. Quando as bactérias digerem a fibra, elas produzem ácidos graxos de cadeia curta que nutrem a barreira intestinal, melhoram a função imunológica e podem ajudar a prevenir a disbiose e a inflamação crônica, o que reduz o risco de câncer. E quanto mais fibra você ingerir, mais as bactérias que digerem fibras colonizam seu intestino.

Veja, em um estudo recente, os cientistas trocaram as dietas regulares ricas em fibras de um grupo de sul-africanos rurais pelas dietas ricas em gordura e carnes de um grupo de afro-americanos que viviam nas grandes cidades. Após apenas duas semanas de dieta rica em gordura ruim, carboidratos simples e pobre em fibras, bem ao estilo ocidental, o grupo rural africano mostrou aumento considerável da inflamação do cólon, bem como diminuição da produção do butirato – um ácido graxo de cadeia curta importante para diminuir o risco de câncer de cólon. Enquanto isso, o grupo afro-americano que mudou para uma dieta rica em fibras, carboidratos complexos e com baixo teor de gordura ruins teve o resultado oposto. Então, o que há de errado com nossas bactérias intestinais quando comemos alimentos processados ​​com baixo teor de fibras? Está aí, bem explicado, bem exemplificado. Menos fibra significa menos combustível para elas, que, essencialmente, morrem de fome. Isso resulta em menos diversidade e bactérias famintas.

Há também os alimentos ricos em gordura láctea, como leite integral e refrigerantes açucarados, que foram correlacionados com a diminuição da diversidade. Na verdade, algumas dessas bactérias impactadas por uma alimentação ruim podem até começar a se alimentar do próprio revestimento mucoso do intestino, causando permeabilidade intestinal. E isso é grave! Por outro lado, alguns alimentos específicos podem afetar as bactérias intestinais da forma boa, benéfica! Em um estudo recente, os cientistas descobriram que frutas, legumes, chá, café e chocolate amargo estavam correlacionados com o aumento da diversidade bacteriana por conterem polifenóis, que são compostos antioxidantes naturais. E não é só “o quê”, mas o “como” – como a comida é preparada também importa. Alimentos frescos, minimamente processados, geralmente têm mais fibras e fornecem melhor combustível. Assim, legumes levemente cozidos no vapor, salteados ou crus são tipicamente mais benéficos do que pratos fritos ou extensamente cozidos.

Existem também maneiras de preparar alimentos que podem realmente introduzir boas bactérias, também conhecidas como probióticos, em seu intestino. Alimentos fermentados estão repletos de bactérias probióticas úteis, como lactobacilos e bifidobactérias. Elas eram originalmente usadas como forma de conservar alimentos antes da invenção da refrigeração, através da fermentação, que continua sendo uma prática tradicional em todo o mundo. Alimentos como kimchi, chucrute, tempeh, e kombucha fornecem variedade e vitalidade de bactérias boas às dietas. O iogurte é outro alimento fermentado que pode introduzir bactérias úteis em nosso intestino. Isso não significa necessariamente que todo iogurte seja bom para nós. Marcas com muito açúcar e poucas bactérias não ajudam! Isso se sabe há muito tempo. Mesmo

em 1895, um cientista russo, Elie Metchnikoff, ficou fascinado ao observar a influência de bactérias intestinais na saúde e longevidade. Ele sugeriu, em seus estudos, que as pessoas de partes da Europa Oriental viviam mais porque comiam muitos alimentos fermentados, contendo lactobacilos vivos. Essa teoria foi ignorada na época e somente muitas décadas depois é que os cientistas reconheceram a importância da microbiota na regulação de doenças e na capacidade cognitiva.

Vamos explorar isso agora? Intestino e cognição? Pois mesmo o cérebro em sua cabeça e o seu intestino estão permanentemente trocando informações. E como eles fazem isso? Se lhe perguntassem onde está localizado o sistema nervoso do corpo humano, você provavelmente responderia somente no cérebro e na medula espinhal, certo? Mas, além do sistema nervoso central, que consiste nesses dois órgãos, nossos corpos também têm o sistema nervoso entérico, um revestimento de dupla camada, com mais de 100 milhões de células nervosas, que abrange nosso intestino, do esôfago ao reto. O sistema nervoso entérico, como é chamado, tem sido apontado como o “segundo cérebro”. É por isso que apenas pensar em comida pode levar seu estômago a começar a secretar enzimas, ou mesmo aqueles que têm pavor de falar em público, ao terem de fazer um discurso, sentem-se totalmente enjoados.

Até recentemente, os cientistas pensavam que esses dois sistemas se comunicavam apenas por meio de hormônios produzidos por células enteroendócrinas espalhadas por todo o revestimento do intestino. Depois de detectar alimentos ou bactérias, as células liberariam mensageiros moleculares que estimulariam o sistema nervoso a modular o comportamento. Mas acontece que o processo pode ser muito mais direto. Um neurocientista do intestino-cérebro da Duke University, Diego Bohórquez, descobriu que algumas células enteroendócrinas também fazem contato físico estreito, formando sinapses, com o sistema nervoso entérico, com cerca de 100 milhões de neurônios – quase o mesmo número que toda a medula espinhal. Por curiosidade, esses mesmos 100 milhões de neurônios produzem quase 95% de toda a serotonina que circula pelo corpo – conhecida como o ‘hormônio da felicidade’, entre suas funções está a regulagem do ritmo cardíaco, do sono, do apetite, do humor, da memória e da temperatura do corpo.

Essa revelação, da relação íntima entre intestino e cérebro, abre a porta para repensar como isso nos afeta e pode um dia mudar a forma como tratamos condições físicas e mentais tão variadas quanto obesidade, anorexia, síndrome do intestino irritável, autismo e TEPT – transtorno de estresse pós-traumático.

Veja só: de fato, há um eixo intestino-cérebro chamado, em inglês, de GBA – Gut-Brain-Axis, que consiste na comunicação bidirecional entre o sistema nervoso central e o entérico, ligando os centros emocionais e cognitivos do cérebro com as funções intestinais periféricas. Isso é uma descoberta sensacional! E os avanços recentes na pesquisa descreveram a importância da microbiota intestinal em influenciar essas interações. Essa influência mútua entre microbiota e o GBA parece ser bidirecional, ou seja, acontece através da sinalização da microbiota intestinal para o cérebro e do cérebro para a microbiota intestinal por meio de ligações neurais, endócrinas, imunes e humorais. Várias evidências disponíveis são suporte à existência dessas interações, bem como os possíveis mecanismos fisiopatológicos envolvidos. Na prática clínica, a evidência de interações microbiota-GBA vem da associação da disbiose, o desequilíbrio da microbiota, com distúrbios do sistema nervoso central, como comportamentos depressivos de ansiedade e distúrbios gastrointestinais funcionais.

Em particular, a síndrome do intestino irritável pode ser considerada um exemplo da ruptura da saúde dessas relações complexas. Escute só essa: pesquisadores brasileiros também descreveram o mecanismo pelo qual desequilíbrio entre espécies bacterianas que vivem no intestino favorecem a predisposição ao Mal de Parkinson e outros distúrbios neurodegenerativos. Tudo isso coloca em perspectiva nosso estilo de vida moderno, principalmente a pouca importância dada à alimentação e aos hábitos alimentares, que juntos estão nos adoecendo, física e mentalmente.

Continua na ‘parte 3’

Passando as fezes a limpo – PARTE 1 – O sistema digestório

Por mais desagradáveis que as coisas possam ser ou parecer, como tudo na vida, o melhor é enfrentar, ficar cara a cara, olho no olho. Só assim podemos avaliar corretamente um desafio, um perigo ou um desgosto, que mais tarde pode nos trazer um incômodo, uma sobrecarga ou um prejuízo.

Dito isso, eu lhe pergunto: quando foi a última vez que você olhou firmemente para as suas fezes? Estou falando sério. Suas fezes podem dizer muito sobre você, quer dizer, sobre sua saúde. O que nós descartamos naturalmente, muitas vezes, acreditamos não ter nenhum valor. Esse não é o caso.

Mas antes de você achar este texto desagradável, há muitas coisas que falaremos antes mesmo de chegar nas fezes. Aliás, neste texto, como em nossa natureza, as fezes serão a última coisa que você ouvirá, combinado? Isto porque nosso sistema digestório é grande e complexo, e você precisa saber como ele funciona para ter saúde. E não é só saúde física, mas saúde mental também, pois o intestino tem muito a ver como cascatas hormonais e substâncias que impactam no cérebro diretamente. Vamos ver isso tudo. Pois bem.

Para chegar em nossas fezes, precisamos voltar para a escola, para as aulas de biologia onde tivemos a primeira descrição detalhada do sistema digestório. Ele era conhecido como sistema digestivo ou gastrointestinal, e começa na boca e glândulas salivares, passa pela faringe, desce pelo esôfago, encontra o estômago, tem suporte do fígado, vesícula biliar, pâncreas, continua pelo intestino delgado (e suas partes) e finalmente chega ao intestino grosso (e suas partes).

A comida é recebida pela boca, triturada pelos dentes com a ajuda da língua e misturada com saliva – uma composição de água, glicoproteínas e substâncias inorgânicas. A saliva tem ptialina, uma enzima que digere amidos. Sua principal função é lubrificar os alimentos que devem descer pelo esôfago e manter a boca úmida.

Essa mistura de comida triturada e saliva passa então pela faringe e alcança o esôfago, um tubo que conduz a mistura com movimentos peristálticos – uma série de contrações e relaxamentos simétricos dos músculos – até o estômago. Se a comida é saborosa e cheirosa, ao chegar lá, uma quantidade de suco gástrico está à sua espera. A função aqui é quebrar as proteínas em polipetídeos, portanto, o suco gástrico é formado por ácido clorídrico, pepsina, um pouco de renina e um muco, tudo produzido pelas glândulas do estômago. O pH, do estômago, graças ao HCl, oscila entre 1 e 3, e isso é importante porque decompõe mais rapidamente os alimentos para torná-los acessíveis ao restante do trato digestivo. A alta acidez do estômago também mata muitas bactérias e microorganismos que não podem sobreviver naquele ambiente, protegendo o corpo da infecção por muitos patógenos comuns. A produção do suco gástrico é desencadeada quando um hormônio, a gastrina, é liberado no sangue em resposta à presença direta de alimentos no estômago, indicando que ele precisa se movimentar e iniciar o processo mecânico de digestão. Várias glândulas são responsáveis pela produção de diferentes componentes desse suco gástrico e por alcançar o equilíbrio correto entre todos os componentes. Já no intestino delgado, a comida bem processada recebe o suco pancreático, e então, os polipeptídeos agora serão transformados em aminoácidos e outros nutrientes. É aqui, no intestino delgado, que os nutrientes vitais serão absorvidos pelo organismo.

Ao contrário do suco gástrico, o suco pancreático que é secretado no duodeno – a primeira porção do intestino delgado -, tem o pH beeem elevado, ou seja, é bem alcalino. Isto porque ele precisa neutralizar a acidez da mistura recém-chegada. Essa modificação de pH facilita também a ação de enzimas. O suco pancreático é formado por bicarbonato e várias enzimas – a função é garantir a máxima absorção de tudo que pode ser aproveitado pelo corpo. Ainda temos a ação da bile, um líquido esverdeado produzido pelo fígado e armazenado na vesícula biliar. É uma mistura de água e sais minerais, bem alcalina, que tem uma ação física, e não química, no processo digestivo. A bile age como um detergente, provocando a emulsificação das gorduras, reduzindo a tensão superficial entre as moléculas lipídicas, aumentando sua exposição à ação das lipases – as enzimas que ajudam a transformar óleos e gorduras.

Acha que acabou a parte bioquímica? Nem de longe. O intestino delgado produz o suco entérico em células de suas paredes. É formado por muco e enzimas que deverão completar a digestão dos alimentos. Sacarase, lactase, maltase, nucleotidases e peptidases são algumas das principais enzimas. Ele produz também hormônios reguladores dos processos digestivos, como a secretina, pancreozimina e enterogastrona. Não é fácil, não!

E como é que o organismo absorve os nutrientes?

Água, alguns sais e álcool podem ser absorvidos diretamente no estômago. Por isso aquela bobagem de “antes de beber, forre seu estômago com azeite para o álcool não ser absorvido”. Já ouviu essa? Pois é, a pessoa fica bêbada e enjoada com o excesso de gordura no estômago vazio.

A maioria dos nutrientes são absorvidos pela mucosa do intestino delgado e passa para a corrente sanguínea. Os aminoácidos e açúcares atravessam as células do revestimento intestinal e também vão para o sangue, que se encarrega de distribuir tudo às células do corpo. O glicerol e os ácidos graxos também acabam atingindo a corrente sanguínea, e depois de uma refeição rica em gorduras, o sangue fica com uma aparência ligeiramente leitosa por conta das gotículas de lipídios.

Continua na ‘parte 2’

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