#COLIFORMESTERMOTOLERANTES

Passando as fezes a limpo – PARTE 1 – O sistema digestório

Por mais desagradáveis que as coisas possam ser ou parecer, como tudo na vida, o melhor é enfrentar, ficar cara a cara, olho no olho. Só assim podemos avaliar corretamente um desafio, um perigo ou um desgosto, que mais tarde pode nos trazer um incômodo, uma sobrecarga ou um prejuízo.

Dito isso, eu lhe pergunto: quando foi a última vez que você olhou firmemente para as suas fezes? Estou falando sério. Suas fezes podem dizer muito sobre você, quer dizer, sobre sua saúde. O que nós descartamos naturalmente, muitas vezes, acreditamos não ter nenhum valor. Esse não é o caso.

Mas antes de você achar este texto desagradável, há muitas coisas que falaremos antes mesmo de chegar nas fezes. Aliás, neste texto, como em nossa natureza, as fezes serão a última coisa que você ouvirá, combinado? Isto porque nosso sistema digestório é grande e complexo, e você precisa saber como ele funciona para ter saúde. E não é só saúde física, mas saúde mental também, pois o intestino tem muito a ver como cascatas hormonais e substâncias que impactam no cérebro diretamente. Vamos ver isso tudo. Pois bem.

Para chegar em nossas fezes, precisamos voltar para a escola, para as aulas de biologia onde tivemos a primeira descrição detalhada do sistema digestório. Ele era conhecido como sistema digestivo ou gastrointestinal, e começa na boca e glândulas salivares, passa pela faringe, desce pelo esôfago, encontra o estômago, tem suporte do fígado, vesícula biliar, pâncreas, continua pelo intestino delgado (e suas partes) e finalmente chega ao intestino grosso (e suas partes).

A comida é recebida pela boca, triturada pelos dentes com a ajuda da língua e misturada com saliva – uma composição de água, glicoproteínas e substâncias inorgânicas. A saliva tem ptialina, uma enzima que digere amidos. Sua principal função é lubrificar os alimentos que devem descer pelo esôfago e manter a boca úmida.

Essa mistura de comida triturada e saliva passa então pela faringe e alcança o esôfago, um tubo que conduz a mistura com movimentos peristálticos – uma série de contrações e relaxamentos simétricos dos músculos – até o estômago. Se a comida é saborosa e cheirosa, ao chegar lá, uma quantidade de suco gástrico está à sua espera. A função aqui é quebrar as proteínas em polipetídeos, portanto, o suco gástrico é formado por ácido clorídrico, pepsina, um pouco de renina e um muco, tudo produzido pelas glândulas do estômago. O pH, do estômago, graças ao HCl, oscila entre 1 e 3, e isso é importante porque decompõe mais rapidamente os alimentos para torná-los acessíveis ao restante do trato digestivo. A alta acidez do estômago também mata muitas bactérias e microorganismos que não podem sobreviver naquele ambiente, protegendo o corpo da infecção por muitos patógenos comuns. A produção do suco gástrico é desencadeada quando um hormônio, a gastrina, é liberado no sangue em resposta à presença direta de alimentos no estômago, indicando que ele precisa se movimentar e iniciar o processo mecânico de digestão. Várias glândulas são responsáveis pela produção de diferentes componentes desse suco gástrico e por alcançar o equilíbrio correto entre todos os componentes. Já no intestino delgado, a comida bem processada recebe o suco pancreático, e então, os polipeptídeos agora serão transformados em aminoácidos e outros nutrientes. É aqui, no intestino delgado, que os nutrientes vitais serão absorvidos pelo organismo.

Ao contrário do suco gástrico, o suco pancreático que é secretado no duodeno – a primeira porção do intestino delgado -, tem o pH beeem elevado, ou seja, é bem alcalino. Isto porque ele precisa neutralizar a acidez da mistura recém-chegada. Essa modificação de pH facilita também a ação de enzimas. O suco pancreático é formado por bicarbonato e várias enzimas – a função é garantir a máxima absorção de tudo que pode ser aproveitado pelo corpo. Ainda temos a ação da bile, um líquido esverdeado produzido pelo fígado e armazenado na vesícula biliar. É uma mistura de água e sais minerais, bem alcalina, que tem uma ação física, e não química, no processo digestivo. A bile age como um detergente, provocando a emulsificação das gorduras, reduzindo a tensão superficial entre as moléculas lipídicas, aumentando sua exposição à ação das lipases – as enzimas que ajudam a transformar óleos e gorduras.

Acha que acabou a parte bioquímica? Nem de longe. O intestino delgado produz o suco entérico em células de suas paredes. É formado por muco e enzimas que deverão completar a digestão dos alimentos. Sacarase, lactase, maltase, nucleotidases e peptidases são algumas das principais enzimas. Ele produz também hormônios reguladores dos processos digestivos, como a secretina, pancreozimina e enterogastrona. Não é fácil, não!

E como é que o organismo absorve os nutrientes?

Água, alguns sais e álcool podem ser absorvidos diretamente no estômago. Por isso aquela bobagem de “antes de beber, forre seu estômago com azeite para o álcool não ser absorvido”. Já ouviu essa? Pois é, a pessoa fica bêbada e enjoada com o excesso de gordura no estômago vazio.

A maioria dos nutrientes são absorvidos pela mucosa do intestino delgado e passa para a corrente sanguínea. Os aminoácidos e açúcares atravessam as células do revestimento intestinal e também vão para o sangue, que se encarrega de distribuir tudo às células do corpo. O glicerol e os ácidos graxos também acabam atingindo a corrente sanguínea, e depois de uma refeição rica em gorduras, o sangue fica com uma aparência ligeiramente leitosa por conta das gotículas de lipídios.

Continua na ‘parte 2’

Role até o topo