#HORMONIOD3

D3 – um hormônio confundido com vitamina – PARTE 3 – Quanto você necessita?

Vamos voltar à questão original: quanto de 25-hidroxi-D você precisa ter circulando em seu sangue para manter os processos metabólicos saudáveis? Esse índice é medido em nanogramas por mililitro, ng/mL. Uma revisão publicada recentemente na Nature Reviews Endocrinology discute as diferenças nas recomendações para suplementação de vitamina D em mais de 40 países, trazendo também a forma como diferentes agências e países recomendam que seja feita a interpretação dos níveis séricos (no sangue) de 25 hidroxi D.

Vou traduzir a tabela para você: na Holanda, acima de 12 ng/mL um indivíduo já estaria em quadro de suficiência. Na Austrália e Nova Zelândia, acima de 20 ng/mL. Para a associação global Endocrine Society, acima de 30 ng/mL. Finalmente, para a Vitamin D Council and Experts, acima de 40 ng/mL. Alguns especialistas, estudiosos dedicados à vitamina D3, defendem que os níveis ideais para a manutenção e boa saúde está entre 40 e 70 ng/mL. Eu acompanho um grupo de médicos brasileiros que defendem números ainda mais anabolizados que esses. Temos profissionais que defendem taxas entre 70 e 120 ng/mL. Em seus consultórios, pacientes que fazem suplementação para atingirem esses níveis têm acompanhamento constante e não apresentam efeitos colaterais, o que nos faz querer observar mais de perto, de aprofundar os estudos e entender, principalmente, as causas da intoxicação.
Voltando à tabela, tem coisa esquisita aí, pra dizer o mínimo: como se chegam a resultados tããão diferentes para um índice tão importante? Que país, órgão ou grupo de estudo está certo? O que defende 12 ng/mL ou o que defende um mínimo de 70? A diferença é gritante!
Talvez haja uma preocupação, isto impacte diretamente no conservadorismo de alguns números – talvez outras disfunções orgânicas sejam acionadas a partir dos níveis elevados de colecalciferol no sangue, o que justificaria a tão alarmada hipercalcemia, uma condição que os níveis de cálcio no sangue sobrem muito e há deposição nos tecidos, o que pode ser fatal a longo prazo. Geralmente, a hipercalcemia é uma desordem metabólica associada ao câncer ou à hiperatividade das glândulas paratireoides. Esse cálcio extra circulante afeta muitos sistemas no corpo. Há uma certa unanimidade internacional que coloca o nível de 140 ng/mL de 25-hidroxi-D no sangue como sendo o limite inicial para uma provável intoxicação por D3. Aliás, segundo The American Society for Bone and Mineral Research, em português “Sociedade Americana para Pesquisa de Ossos e Minerais”, os efeitos colaterais ligados à esta suposta intoxicação advêm do excesso de cálcio circulante, pois não há relatos ou pesquisas que corroborem quaisquer sintomas ligados ao excesso da D3, ou de suas precursoras ou derivadas.
Mas onde tudo isso nos leva? Tem mais um dado que precisamos entender. Foi calculada a produção ou o consumo de vitamina D3 e sua relação com os índices de colecalciferol circulante no sangue. Veja bem: em um indivíduo saudável, de 70 quilos, cada 1.000 unidades internacionais ou 25 microgramas de vitamina D3 podem elevar os níveis sanguíneos em 7 ng/mL. Se você fizer um exame de 25-hidroxi-D circulante no sangue e ele detectar um índice de 20 ng/mL, ao cabo de algumas semanas, você pode aumentá-lo para 50 ng/mL tomando 4.300 unidades internacionais diariamente. Isso se você pesar 70 kg. Se você estiver desconfiado desses números, se achar demasiados ou exagerados, eu lhe digo o seguinte: segundo publicação da The American Society for Bone and Mineral Research, abre aspas, “as evidências de ensaios clínicos mostram que uma ingestão prolongada de 250 μg (10.000 UI)/d de vitamina D3 provavelmente não apresenta risco de efeitos adversos em quase todos os indivíduos da população em geral, e isso atende aos critérios para um nível de ingestão superior tolerável”, fecha aspas. Não entenda isso como uma sugestão, hein? É apenas um exemplo para que você tenha ciência de como a coisa, mais ou menos, funciona.
Eu quero voltar à resolução da ANVISA e suas recomendações. A ideia aqui é mostrar um claro descompasso entre a ciência atualizada e a prática política. Então, a resolução RDC nº 269 de 22 de setembro de 2005, abre aspas, “atualizando os valores de ingestão diária recomendada de vitaminas, elenca o seguinte em suas tabelas:

  • Ingestão diária para adultos: 5 microgramas ou 200 unidades internacionais;
  • Ingestão diária para lactentes e crianças: 5 microgramas (considerando crianças de zero a 10 anos) ou 200 unidades internacionais; e;
  • Ingestão diária para gestantes e lactentes: 5 microgramas ou 200 unidades internacionais.

A resolução deixa clara a necessidade de se atualizar os valores e parâmetros de ingestão diária para indivíduos de diferentes grupos populacionais, e que o descumprimento constitui infração sanitária.
Depois de tudo o que vimos até aqui, isso faz algum sentido para você?
Veja, eu não estou recomendando nada a você, muito menos prescrevendo! Não sou médico, não conheço você, não sei de suas deficiências e do seu estado de saúde. E aqui vai mais uma ressalva: 25-hidroxi-D circulante não significa vitamina D3 absorvida e funcional no seu organismo. Se os seus rins estiverem doentes, eles podem não ativar o calcidiol, não conseguem transformá-lo em calcitriol. Geralmente, quem faz hemodiálise por exaustão ou falência renal não ativa a D3. E há um último agravante: seus receptores celulares de D3 podem estar saturados, você pode sofrer de resistência ao calcitriol! É raro, mas pode acontecer, então tudo o que lhe mostrei aqui não faz sentido para o seu organismo. E tem mais – quanto mais velhos ficamos, menor nossa capacidade de transformar 25-hidroxi-D em 1-25-hidroxi-D. Um indivíduo de 70 anos tem, em média, 4 vezes menos capacidade de ativar a vitamina D que um jovem de 25 anos.
Qual minha recomendação? É a seguinte. Em primeiro lugar, observe-se atentamente. A ideia é procurar sintomas possíveis da deficiência de vitamina D. Se você tem uma inflamação do nervo óptico – isso é um possível sinal de esclerose múltipla-, ou sente uma diminuição geral do desempenho, se tem dores de cabeça após esforço físico, ou dores nas articulações, ou tremores e cãibras musculares, se dorme muito mal, se sente diminuição da concentração, e por último, tem unhas quebradiças, uma conjunção desses sinais pode ser um alerta. Vá ao seu médico, faça o exame de 25-hidroxi-D, e todos os outros necessários para avaliar corretamente sua condição – por exemplo, os níveis de paratormônio, de cálcio total, e outros – deixe que ele avalie você e prescreva a suplementação. De tempos em tempos, refaça o exame a fim de criar um acompanhamento. Isso é muito importante.
De novo, lembre-se que a forma ideal de obter D3 é pela produção endógena, a partir da luz solar. O corpo forma a maior parte da vitamina D que você necessita convertendo a luz solar na pele. As quantidades em excesso são armazenadas no tecido adiposo, quer dizer, na sua gordura corporal, no tecido muscular e no fígado. Para isso, é necessário expor áreas maiores da pele ao sol por períodos mais longos todos os dias.
Por último, um aviso: esse assunto vitamina D3 não para por aqui. Tem muita coisa ainda para tratarmos juntos. Precisamos tratar dos receptores da D3 no corpo, da prevenção da deposição do cálcio nos tecidos moles, do impacto da D3 no sistema imune, entre muitos outros. Nos próximos textos, ok? Então, até lá, um abraço!

D3 – um hormônio confundido com vitamina – PARTE 2 – Bioquímica

Essa parte do texto é eminentemente técnica, talvez você goste, talvez você ache demasiado ‘acadêmico’, mas eu incluí aqui por entender ser muito necessário você saber o que acontece em seu corpo, de forma geral.
O termo vitamina D engloba um grupo de moléculas derivadas do colesterol produzido em nosso organismo. Mais precisamente, do 7-deidrocolesterol (7-DHC), você já ouviu esse nome por aqui. A partir dele, ocorre uma cascata de reações fotolíticas, ou seja, ativadas pela luz, e enzimáticas, que acontecem em células de diferentes tecidos, em diferentes órgãos. Também nessa denominação abrangente está a forma inativa da vitamina D, o chamado calcidiol, que é convertido na forma ativa chamada calcitriol – 1 alfa, 25 dihidroxi-vitamina D – e seus precursores, ou seja, todas as formas anteriore. Isto está longe de ser simples, tanto que essa cascata de reações e inativações foi chamada de Sistema Endocrinológico da Vitamina D. A ele é atribuído, inicialmente, o papel de regulador da fisiologia osteomineral, em especial do metabolismo do cálcio. Entretanto, a 1-25-dihidroxi-D está extremamente envolvida na homeostase, que é a condição de relativa estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente, também de vários outros processos celulares, entre eles a síntese de antibióticos naturais pelas células de defesa, a modulação da autoimunidade e a síntese de interleucinas inflamatórias, tem impacto no controle da pressão arterial e é muito importante na regulação dos processos de multiplicação e diferenciação celular. É também atribuída à vitamina D o papel antioncogênico, quer dizer, o papel de combater as células cancerígenas em nosso organismo.
Muitos estudos realizados nas últimas décadas mostram que a vitamina D impacta em mais de 900 genes-alvos, o que corresponde a cerca de 3% do genoma humano. Isso é simplesmente incrível! Devem ser mais de 290 sínteses enzimáticas. O reconhecimento da importância da vitamina D na nossa saúde global despertou um grande interesse na comunidade científica. Aqueles estudos todos mostraram que uma grande parcela da população mundial, independente da idade, etnia e da localização geográfica, apresenta baixos níveis de vitamina D. Em território brasileiro, os estudos mostram prevalência de baixos níveis em cerca de 60% dos adolescentes, de 40% a 58% nos adultos jovens e entre 42% e 83% em idosos, com taxas mais altas ainda de deficiência entre indivíduos com idades mais avançadas. São dados oficiais, comparados às referências adotadas como adequadas pelo governo brasileiro. Se estas referências oficiais estiverem realmente baixas, por conta de dados anacrônicos, – vamos abortar essa questão logo em seguida – os resultados são ainda piores e mais dramáticos! Esse panorama por si só é muito polêmico, porque não há consenso em qual seria o melhor ensaio laboratorial para a dosagem da vitamina D e quais parâmetros devem ser utilizados para definir se um indivíduo tem suficiência, insuficiência ou deficiência de vitamina D.
Nos seres humanos, apenas 5% a 10% da vitamina D necessária à adequada função do organismo vem da dieta. Na alimentação, as principais fontes são de origem animal – a vitamina D está presente nos peixes gordurosos de água fria e profunda, como atum, salmão e no plâncton -, e tem também o ergosterol, de origem vegetal, presente nos fungos comestíveis. Os restantes 90% a 95% que necessitamos são sintetizados pelo nosso organismo. Ou deveriam. Em nosso corpo, tudo começa nas camadas mais profundas da pele, onde está armazenado o precursor 7-deidrocolesterol. É necessário que tomemos sol, luz solar direta, mais especificamente, precisamos da radiação ultravioleta tipo B. É uma frequência da luz solar de comprimento de onda entre 290 e 315 nanômetros. Ela atinge o planeta entre 10h30 da manhã e 14h30 durante os meses mais quentes. Dependendo de onde estamos no planeta, se mais próximo do equador ou mais distante dele, essa radiação sofre interferência e perde poder, potência. Nas estações do ano mais frias essa interferência também ocorre, por isso, no inverno, nas regiões temperadas, os governos atentos fazem suplementação de vitamina D às suas populações. Pois bem.

Esta é a ‘cascata’ fisiológica de produção da vitamina D3 em nosso organismo

Outra variável muito importante nessa etapa de ativação da vitamina D é a quantidade de melanina na pele. Melanina é o que dá pigmentação, cor, e proteção contra a radiação solar. Quanto mais melanina, mais escura é nossa pele, menos absorvemos a radiação ultravioleta. Por isso, indivíduos com pele mais escura precisam de mais exposição ao sol para sintetizarem a mesma quantidade de vitamina D3 que indivíduos de pele clara.
E quanto de sol você deve tomar? Quanto mais sol, mais vitamina D? Não. O corpo é sábio, já vimos que o excesso de vitamina D causa intoxicação, portanto, há um mecanismo natural de proteção contra a síntese excessiva de D3. Quando ficamos muito tempo em exposição ao sol, a pré-vitamina D3 se transforma em 2 outras substâncias quase inertes. Veja só, vou lhe dar um exemplo prático. Ao nível do equador, durante um mês de verão, ao meio dia, com o sol a pino, um adulto de 70 quilos, saudável, pele clara, exposto completamente ao sol, sua pele é capaz de produzir 5 miligramas de vitamina D3 em 20 minutos. Se você preferir, fazendo a conversão direta, o corpo produz 20.000 Unidades Internacionais. Depois desse curto período, percebe-se que a pele ganha uma coloração avermelhada, formam-se os “eritemas”, ou seja, manchas pontilhadas vermelho-esbranquiçadas por conta da vasodilatação dos vasos capilares da pele. Neste estágio, cessa-se a produção de colecalciferol e os excedentes serão inertes. Da pele ou mesmo advindo da dieta, o colecalciferol cai na corrente sanguínea e segue para o fígado, onde passa por reações bioquímicas de hidroxilação do carbono 25. Daí o nome 25-hidroxi-vitamina D, ou, calcidiol, que é o pré-hormônio ou pró-hormônio. Veja, o corpo é uma orquestra onde dificilmente um único músico se destaca. Dito isso, uma parte significativa do processo ocorre nos rins! A enzima que ajuda na hidroxilação, na ativação, é produzida neles, onde o calcidiol é transformado em calcitriol ou 1,25-dihidroxi-colecalciferol – a forma ativa da vitamina D encontrada no corpo. Essa ativação também acontece em outros tecidos do corpo, mas os rins concentram grande parte do processo. Então, o calcitriol aumenta a absorção de cálcio pela via intestinal, inibindo a excreção deste mineral pelos rins, entendido?
Nesse ponto acho que já é o suficiente, né? Este texto não é uma aula de bioquímica, portanto, chega de nomes complexos e formulações bioquímicas.
E o que é muito importante você saber? Que a vitamina D3 ativada possui receptores em quase todas as células do corpo humano, com exceção das hemácias (que são células do sangue), exceção também em algumas células musculares estriadas maduras e algumas células altamente diferenciadas do sistema nervoso central. Então, veja só, em um resumo: a vitamina D3 ativada é responsável pelo metabolismo osteomineral, por vários processos de regulação do sistema imunológico, pelo ciclo celular, e neste, principalmente pela apoptose, que é a morte celular programada. Sem a apoptose, as células tornam-se ‘imortais’, viram células cancerígenas, que são aquelas que se proliferam sem controle; a vitamina D3 ativada também é responsável pelos processos relacionados à fertilidade do indivíduo, pela saúde do sistema cardiovascular e pressão arterial, pelo controle do metabolismo glicídico, ou seja, está na raiz da produção da insulina pelo pâncreas; também está no processo de desenvolvimento do sistema musculoesquelético – impacta na produção das fibras musculares e no volume da massa muscular. No cérebro, estudos novos mostraram que a vitamina D3 ativada tem ação estimuladora do fator de crescimento neural (NGF) e modulação do desenvolvimento cerebral. Vários outros tecidos, como placenta, pulmões, próstata, adipócitos – que são as células de gordura -, retina, entre inúmeros outros, também são impactados pela vitamina D3 ativada. De novo – esse pró-hormônio regula 3% de todo nosso genoma, portanto, é absolutamente fundamental em nossa vida, em nossa saúde.
E como isso aconteceu? Bem, isso aconteceu ao longo de, pelo menos, 3,5 milhões de anos de evolução humana, desde os hominídeos. Olhando bem mais para trás, o pró-hormônio D3 é muito mais antigo. Os hominídeos herdaram de seus antecessores esses processos bioquímicos. Daí ser quase impossível de se calcular quando se deu o início de tudo. Tudo porque, durante todo esse período, estivemos suscetíveis, muito expostos, à radiação solar, à luz do sol. Toda nossa evolução foi batizada tendo a energia solar como fonte de vida.
Agora, reflita comigo. A vida do homem sempre foi ao ar livre. As roupas, as coberturas artificiais de proteção contra o frio e outras intempéries foram sendo adotadas em nosso estilo de vida ao longo dos últimos 200 mil anos. Isso é especulativo, ok? Mas a vida continuou ao ar livre, em contato direto com a luz solar. Por isso, todo nosso organismo é absolutamente dependente da radiação ultravioleta. Sem radiação, não existe vitamina D3. Sem vitamina D3, não há vida, não há saúde. Então, me responda? O que estamos fazendo hoje? Você acorda em sua casa, protegido da luz solar. Entra no seu automóvel, ou pega um transporte público, protegido da luz solar. Vai trabalhar em um escritório, loja ou fábrica, protegido da luz solar. No fim do dia, quando a luz do sol já está fraca, minguada, faz o caminho contrário e chega em casa. Que radiação benéfica impactou sua pele? Quanto de pró-hormônio D3 seu organismo conseguiu produzir com isso? Percebeu o problema? Lembrando de tudo o que eu falei aqui, antes, quantas doenças você está desenvolvendo silenciosamente pela falta ou deficiência de D3?
Está na hora de fazermos contas, certo? Você precisa saber quanto de 25-hidroxi-D você precisa ter circulando em seu sangue para manter os processos metabólicos saudáveis.
E aqui, antes disso, preciso fazer novas considerações pra gente conseguir chegar a uma conclusão correta. O que as agências e órgãos de controle e saúde afirmam ser índices saudáveis, ou, no mínimo, aceitáveis?
Quem ou como esses índices foram calculados? Que exames foram feitos e como? Pois é, aqui está, uma outra novela. Sente-se ainda mais confortavelmente que lá vem outra história.
Durante a Segunda Grande Guerra Mundial, nos Estados Unidos, claro, sempre lá, uma comissão técnica foi criada com o objetivo de investigar problemas de nutrição que poderiam afetar a defesa nacional. A comissão estudou alimentos energéticos e uma lista de nutrientes, criando um conjunto de diretrizes ou normas. Essas normas seriam usadas como recomendações nutricionais para as forças armadas, para os civis e para a população exterior que poderia ter necessidade de ajuda alimentar. Por causa do racionamento de comida durante a guerra, os guias alimentares levaram em conta a disponibilidade de alimentos na época. Esses estudos foram chamados de RDA – Recommended Dietary Allowance. Várias revisões foram feitas a partir das mudanças em estilo de vida e disponibilidade alimentar, e, em 1997, por sugestão do Instituto de Medicina da Academia Nacional dos Estados Unidos, a RDA se tornou parte de um amplo conjunto de orientações dietéticas chamado Dietary Reference Intake – DRI – utilizado tanto pelos Estados Unidos quanto Canadá. Claro que países por todo o mundo acabaram por adotar orientações semelhantes, alguns têm tabelas próprias, outros adotaram as recomendações fornecidas pela OMS – Organização Mundial da Saúde e FAO, sua agência especializada em esforços para erradicar a fome no mundo. No Brasil, encontrei uma resolução de 2005, publicada pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, da aprovação do Regulamento Técnico sobre a Ingestão Diária Recomendada – IDR – de proteína, vitaminas e minerais. Nessa publicação há uma série de tabelas de valores nutricionais por faixas de idade, vou comentar sobre elas um pouco mais adiante. Pois bem. As DRIs internacionais, ou IDR brasileira, têm como um dos objetivos orientar profissionais que atuam na área de alimentação e nutrição sobre os novos conceitos e recomendações nutricionais e sua interpretação. Assim, as DRIs podem ser usadas para planejar dietas, definir rotulagem e para programas de orientação nutricional. Um ponto que me chamou a atenção foi o seguinte – abre aspas – “assim como as antigas RDAs, cada DRI refere-se a uma ingestão de nutrientes ao longo do tempo por indivíduos aparentemente saudáveis”. Isto está em um documento da ILSI – International Life Science Institute, uma fundação científica pública, filiada à OMS. Aparentemente saudáveis significa uma população de pessoas que não manifestaram doenças, que têm seus exames laboratoriais dentro da média normal. Outro ponto que me chamou a atenção naquele documento – abre aspas – “as DRIs são formadas por valores de referência baseados em dados, contudo, estes são frequentemente escassos ou tirados de estudos que possuem limitações para tratar a questão”. Em outras palavras, a origem, tratamento, assertividade e acurácia daqueles dados é obscura. Há dados que vêm sendo herdados há décadas, e não se questionam as origens ou os métodos que foram usados para extraí-los. Claro, eu não posso ser leviano – preciso fazer um aparte aqui – minhas considerações nesse texto têm o objetivo de analisarmos somente a questão da vitamina D, por isso, não posso generalizar. Grupos de estudiosos, historicamente, vêm se debruçando sobre o assunto nutrição, há muita complexidade nisso, muitos desdobramentos, muitas reflexões sobre padrões, normalidade, exceções, julgamento científico etc. As variáveis são infinitas – há tabelas de ingestão dietética recomendada, de necessidade média estimada, de ingestão adequada, de limites superiores toleráveis, de biodisponibilidades, de interações entre nutrientes e micronutrientes, tabelas de risco, entre outras. Portanto, temos de ter muito cuidado para não levantarmos questionamentos contestáveis ou não genuínos.

(Continua na parte 3)

D3 – um hormônio confundido com vitamina – PARTE 1 – História e importância

Em um dos textos aqui desta plataforma eu falo sobre a natureza do conhecimento especializado. Uma de suas características principais reside no fato dele ser efêmero por um lado e dinâmico por outro. Porque é um tipo conhecimento que está em constante atualização. É natural isso – quanto mais a ciência avança, mais ela esclarece o que antes eram suposições, hipóteses ou mesmo teorias, e corrige o que era impreciso. Suas atualizações chegam mesmo a reparar antigas especulações e ideias seculares. Por mais que esse tipo de conhecimento se torne público, é bom entender que esta publicidade não o transforma em verdade absoluta. A vitamina D é um bom exemplo disso. Há pelo menos 150 anos de tentativas de entendê-la corretamente e conceituá-la definitivamente. Hoje, o que sabemos é bastante próximo à verdade, contudo, uma série de ideias especulativas ainda cercam o tema, e fazem da vitamina D uma espécie de ‘Dr. Jekyll e Mr. Hyde’ da medicina. Conhece essa história? Em português – ‘O médico e o monstro’ – Henry Jekyll era um homem bom, cientista, marcado por uma personalidade dividida – tinha seu lado obscuro que se revelava na persona de Mr. Edward Hyde, um sujeito cruel, violento e sem remorsos. Assim é a vitamina D para alguns médicos – o elixir da saúde -, mas, para outros, um exagero perigoso, uma glorificação comercial da bilionária indústria de vitaminas e suplementos. Para esse entendimento, vamos fazer uma jornada – começar na história e avançar para eventos recentes. Você vai gostar. Além de muito instrutivo, é algo que você dificilmente vai esquecer, que é a minha ideia aqui. A gente costuma lembrar melhor das boas histórias.
A vitamina D está muito ligada ao raquitismo, uma doença que se caracteriza pela mineralização insuficiente de ossos e cartilagens. Ela acontece durante a fase de crescimento do indivíduo, principalmente pela deficiência de vitamina D, mas pode também estar associada a uma mutação genética.
Vamos focar aqui na forma historicamente mais comum do raquitismo e em como a vitamina D foi descoberta, pois o que aconteceu foi uma espécie de ‘esclarecimento em paralelo’. Essa doença, o raquitismo, foi descrita pela primeira vez por um médico grego chamado Soranus, em 100 a.C. E a história da vitamina D começou há mais de 100 anos. E o que é uma vitamina? Em 1911, um bioquímico norte-americano chamado Kazimierz Funk criou o termo “vita amines” para designar as substâncias essenciais cuja deficiência na dieta seria a causa de doenças específicas. A expressão vitaminas pretendia significar “vital aminas”, do latim vita – vida -, mais o termo químico aminas – que são compostos orgânicos com nitrogênio, derivados do amoníaco. Em 1920, Jack Drummond, um bioquímico inglês que estudava nutrição, propôs uma mudança de nomenclatura, porque esse sufixo “aminas” não se aplicava às características de todos os micronutrientes que foram identificados. Então, cada uma das substâncias essenciais que tivesse sido isolada e caracterizada até aquela data, ou mesmo no futuro, seria denominada por uma letra do alfabeto latino, por ordem de sequência.
Por conceito, o que são as vitaminas? São substâncias orgânicas que nosso organismo necessita, em pequenas quantidades, que são indispensáveis ao bom funcionamento, mas que o corpo não produz. Isso é importante frisar. Elas precisam necessariamente ser ingeridas e absorvidas. Estão na classe dos micronutrientes. Pois bem.

Durante a Revolução Industrial, as crianças ficavam confinadas em ambientes insalubres, longe da luz solar

Na história, o raquitismo foi descritivo várias vezes, em locais distintos, por estudiosos diversos, mas foi em uma aparente coincidência, nos finais do século 18 e início do século 19, durante o desenvolvimento da Revolução Industrial, que um surto de raquitismo na população infantil das principais cidades da Inglaterra e em outros países da Europa e Estados Unidos, chamou a atenção. Naquela época, prevalecia o conceito de que o raquitismo teria origem em ambientes degradados e com baixa exposição solar. O clínico francês Armand Trousseau teria sido o primeiro a dizer, em 1861, que o raquitismo em crianças resultava da falta de exposição do corpo ao sol e de deficiências alimentares. Ele foi talvez influenciado pelos resultados que a medicina alemã, de forma geral, vinha divulgando sobre a utilidade do óleo de fígado de bacalhau no tratamento do raquitismo. Trousseau, então, propôs que o raquitismo poderia ser curado com a ingestão de óleo de fígado de bacalhau, ou qualquer outro óleo de peixe, somada à exposição do corpo ao sol.
Mas, por que exposição ao sol? A “fatura já não havia sido liquidada” com a administração do óleo de peixe? Intuitivamente, foi percebida uma correlação entre a falta de sol e o raquitismo, porque as crianças, durante a revolução industrial, ficavam trancadas em casa enquanto seus pais iam trabalhar nas oficinas, ou mesmo quando elas já estavam em idade de produzir com sua mão de obra, ficavam enclausuradas durante todo o tempo nas mesmas oficinas onde trabalhavam seus pais. É bom lembrar também que esses países de hemisfério temperado, quanto mais ao norte ou mais ao sul, menor a incidência e potência dos raios solares.
Nessa linha, em 1895, o pediatra austríaco Max Kassowitz evidenciou que a incidência do raquitismo variava com as estações do ano – maior nos meses de inverno e menor nos meses de verão e outono. Apesar dessas considerações, também se acreditava que o raquitismo fosse uma doença congênita, portanto, algo que era passado dos pais à criança.
Em poucas décadas, também paralelamente, a ciência avançou muito no conhecimento da luz e seus espectros luminosos. Em 1920 estava definida e esclarecida a existência e as propriedades da radiação ultravioleta da luz solar, uma frequência não visível, com alguma aplicação terapêutica. Tanto que eram muito bem aceitas a helioterapia – o tratamento de certas moléstias que utiliza a luz solar sobre a pele – e a fototerapia – um outro método terapêutico baseado em banhos de luz, que utiliza os raios infravermelhos e ultravioleta artificiais. Em 1928, um estudioso chamado Laurens postulou que “o efeito da radiação ultravioleta no organismo não se exercia diretamente nos seus órgãos, antes, resultava da formação na pele de uma substância fotoquímica que era rapidamente transportada pela corrente sanguínea aos restantes setores do organismo.” Ele acertou quase em cheio! Foi nesse período, mais ou menos, que o pediatra alemão Kurt Huldschinsky revelou que crianças com raquitismo melhoravam depois de expostas à luz solar e também à iluminação artificial que reproduzia a luz ultravioleta. Estes tratamentos constantes recuperavam a mineralização dos ossos e fortalecia os doentes. Mas a ciência estava longe ainda de entrar em concordância. Terapias com radiação ultravioleta tinham um efeito colateral – o câncer de pele. E também, uma série de estudos em laboratório ainda identificou dois outros fatores como fundamentais na cura do raquitismo – a vitamina A, que já era bem conhecida dos bioquímicos, e o cálcio. Não vale a pena aqui discorrer sobre essas mudanças todas, sobre as idas e vindas, só o fato de que isso permaneceu no meio científico criando algumas incertezas. Ainda na década de 1920, bioquímicos e pediatras estavam dispostos a matar essa charada. Um cara chamado McCollum testou o óleo de fígado de bacalhau INIBINDO a vitamina A, que se supunha ser o principal fator contra o raquitismo. Ainda assim, este óleo de fígado de bacalhau alterado, na dieta, induzia a sinais de recuperação e regeneração óssea. Portanto, McCollum concluiu que ainda havia uma OUTRA substância presente no óleo de bacalhau que promovia a deposição do cálcio nos ossos. Seria uma outra substância lipofílica, ainda por ser descoberta. E isso aconteceu logo em seguida – a substância foi batizada de vitamina D, por ter sido a quarta vitamina catalogada. Essa identificação química foi possível por conta de uma colaboração internacional entre laboratórios europeus e um americano, em 1927. Finalmente, em 1931, cientistas isolaram, purificaram e identificaram a estrutura do ‘ergosterol irradiado’, depois denominado vitamina D2 ou calciferol. A suplementação dietética com o ergosterol irradiado, e sua versão comercial Viosterol, na adição de alguns alimentos como cereais e pão, era fácil, econômica e, dessa forma, tornou-se prática corrente, o que teria contribuído para alguma redução no raquitismo infantil na época.
Em 1932, nos Estados Unidos, o leite começou a ser fortificado com Viosterol, após uma campanha de prevenção ao raquitismo. Esse esforço equivaleu à campanha de qualquer produto farmacêutico, de tão robusta. Entretanto, foram verificadas algumas diferenças incômodas nos resultados obtidos com o Viosterol quando comparados aos resultados obtidos com os óleos de peixe. Tinha alguma coisa errada. Óleos de peixe somados à irradiação corporal direta por luz ultravioleta eram muuuito mais eficazes do que o tal Viosterol. Rudolf Schoenheimer, um proeminente bioquímico, avaliou o seguinte: “o ergosterol irradiado” era um produto vegetal, e tinha baixa absorção pelo organismo humano. No geral, esteróis de origem vegetal têm mesmo baixa absorção. Por outro lado, o óleo de fígado de bacalhau era preferido por muitos clínicos e pediatras por conter também concentrações elevadas de vitamina A. De alguma forma, a vitamina A ainda era muito importante no processo de cura. Vou dedicar um outro texto a esse ponto em especial, vale a pena.
Deixe-me fazer um aparte aqui: desde a década de 1930 se sabe que a vitamina D2 traz resultados clínicos ordinários, medianos, exatamente por conta da difícil absorção dessa substância vegetal pelo nosso organismo. Você sabia que, até hoje, quando se lê em uma embalagem “enriquecido com vitamina D”, é da vitamina D2 que estamos falando? Claro, por motivos econômicos! A vitamina D2 é muito mais barata para se produzir que a vitamina D3, além de manter sua estabilidade naquelas adições. Pois bem.
Em 1935 uma questão foi resolvida: a síntese do 7-desidrocolesterol foi concretizada, ele foi isolado na pele de humanos, bois e ratos, e, depois de irradiado, exibiu efeitos anti-raquitismo. Isso pôs um fim às dúvidas sobre os benefícios terapêuticos da luz ultravioleta. O produto resultante do 7-desidrocolesterol recebeu a designação de vitamina D3 (ou colecalciferol), isso em 1936. Na mesma data, foi esclarecido que o constituinte do óleo de fígado de peixes que lhe confere propriedades antirraquíticas é estruturalmente idêntico ao nosso pró-hormônio D3.
No fim da década de 1940, Bartos Velluz e Gaston Amiard propuseram que a vitamina D seria formada na epiderme, em nossa pele, por fotólise do 7-desidrocolesterol, e isso resultaria na chamada provitamina D, com subsequente isomerização em vitamina D3. O processo mais complexo, o mecanismo de formação da então vitamina D3 a partir da irradiação do 7-desidrocolesterol existente na pele seria descrito corretamente só três décadas mais tarde. No ano em que eu nasci, 1966, Judith Lund e Hector DeLuca esclareceram definitivamente a situação: demonstraram pela primeira vez, que a vitamina D3 é uma pró-hormônio inativo, e absolutamente diferente e desprovido das características que são comuns às vitaminas. Ou seja, o colecalciferol, a D3, não é vitamina. É, no máximo, um pró-hormônio. Mas, por que ainda é chamado de vitamina? Por convenção, por conta de uma longa publicidade e equívocos que duraram décadas e também porque é uma substância encontrada em suplementos alimentares, o que justifica, entre aspas, o título de vitamina.
Esclarecido isso, vamos seguir adiante. Ainda temos muito trabalho, muitas descobertas por aqui. E para facilitar as coisas, eu me rendo, vou continuar chamando o colecalciferol de vitamina D3, ok?
Durante quase todo o século 20, falta de orientação adequada para suplementação terapêutica ou educação pública adequada, provavelmente, contribuíram para umas complicações no outro espectro de anormalidades no metabolismo da vitamina D. Ou seja, sua toxicidade, a chamada hipervitaminose D.
Por um lado positivo, a suplementação de produtos alimentares com vitamina D foi fundamental para a erradicação do raquitismo no início do século XX nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos. Nesses quase 100 anos, um acúmulo bastante heterogêneo de evidências ligou a deficiência de vitamina D a uma variedade de problemas de saúde, e isso levantou um grande interesse público. Os suplementos que contêm vitamina D estão agora amplamente disponíveis tanto nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento, e muitos estão na forma de formulações não regulamentadas, vendidas ao público com poucas orientações para uma administração segura. Juntos, isso contribuiu para uma transição na qual um aumento global expressivo nos casos de toxicidade da vitamina D tem sido relatado. Médicos reclamam agora que enfrentam o desafio de tratar essa condição de hiper vitaminose D que pode apresentar um espectro de complicações agudas, até com risco de vida. É a classe médica assumindo um papel de alerta. Vamos ver isso mais de perto. Preste atenção aqui.
Análises feitas por todo o mundo durante décadas mostrou uma alta constante dos níveis séricos de vitamina D em vários países – Irlanda, Noruega, Canadá, Inglaterra, Austrália e Estados Unidos. Abrindo um parêntesis – nível sérico é um termo usado por profissionais de saúde para se referir a quantidade de uma determinada substância no sangue. Bem, só nos Estados Unidos, a média de casos de toxicidade por hiper vitaminose D saltou de 196 por ano para mais de 4.300, mais de 20 vezes em um curto espaço de tempo, de 1 década, de 2000 a 2011. Isso lhe parece considerável? Numericamente, sim, eu concordo. A toxicidade da vitamina D é geralmente iatrogênica, quer dizer, acontece por erro médico, ou devido a uma overdose acidental. Suplementos contendo vitamina D hoje são facilmente obtidos em farmácias, mercados e outras lojas de varejo. Alguns desses suplementos existem como formulações não regulamentadas ou não licenciadas. Esses fatores, juntamente com a falta de educação pública para a dosagens seguras, provavelmente contribuíram para aumentar esses casos relatados de toxicidade da vitamina D. O envenenamento não intencional por vitamina D também foi associado à super fortificação de produtos de consumo, como leite e até óleo de cozinha.
Um relato de hipervitaminose D que ocorreu nos Estados Unidos, em oito pacientes, descobriu-se que a fonte foi um erro em um laticínio, onde foi feita uma fortificação excessiva de vitamina D no leite da ordem de 232.000 UI por litro, em vez do padrão de 400 UI por litro. Um outro caso relatado naquele país, fala de um idoso, 72 anos, hospitalizado por estado mental alterado, taquicardia e insuficiência respiratória aguda. Passou sete dias internado na UTI, onde foi submetido a uma hemodiálise intermitente. Quando melhorou seu estado mental, relatou estar consumindo diariamente, há vários meses, 50.000 UI de colecalciferol, a D3, mais 500 mg de cálcio e 400 UI de ergocalciferol, a vitamina D2. Em outra região do planeta, na Caxemira, na Índia, pacientes idosos receberam formas orais ou injetáveis de várias vitaminas para doenças diversas. De acordo com um relatório, 62 pacientes foram intoxicados com vitamina D por negligência – eles receberam múltiplas injeções de vitamina D com doses de 600.000 UI por injeção! Esses idosos apresentaram hipercalcemia e lesão renal aguda. Também houve o caso de 7 crianças que receberam altas doses de injeções de vitamina D com mais de 900.000 UI, por conta de um déficit de crescimento. No Brasil, também, um relatório descreve um aumento exponencial na ingestão de vitamina D na última década, partindo do uso indiscriminado em manipulações e preparações que podem potencialmente aumentar a incidência de hiper vitaminose D. Aliás, deixa eu recordar aqui um caso desses ocorrido na cidade de Porto Alegre, em 2020. Dois estudantes foram hospitalizados com náuseas, vômitos e dor de cabeça. A mãe de um deles afirmou que isso ocorreu depois que a filha começou a suplementar com cápsulas de vitamina D, de doses de 2.000 UI. Ocorre que, desconfiada do produto, a mãe resolveu mandar analisar as tais cápsulas. Para surpresa geral, cada cápsula continha o equivalente a 2.350.000 UI – um claro erro de produção, e todo o lote de produtos foi retirado do mercado pelo fabricante.
O que tudo isso nos diz? Não muito ainda, creio. Vamos nos aprofundar em alguns outros tópicos importantes para você entender o todo. Agora, você é bom você conhecer o conceito de Unidade Internacional. Depois, vamos avaliar quais são as verdadeiras necessidades fisiológicas de D3 para descobrir o que há de errado nessa história toda. Fique comigo.
Em farmacologia, Unidades Internacionais são as unidades de medida da quantidade de uma substância, com base na atividade biológica avaliada. A unidade internacional é usada para vitaminas, hormônios, diversos medicamentos, vacinas, produtos derivados de sangue ou outras substâncias biológicas ativas. A ideia é saber o quanto da substância está diluída, por média. 100 UI por mL significa 100 unidades internacionais por mililitro. E a quanto corresponde 1 unidade internacional? A 0,025 microgramas. Em outras palavras, 40 unidades internacionais equivalem a 1 micrograma, que é 1 milionésimo de grama. Você percebe que são valores minúsculos? É aí que mora a confusão.
Quando não consumimos a quantidade necessária de vitaminas, dá-se o nome de hipovitaminose. No entanto, o consumo excessivo também é prejudicial para a nossa saúde, chamado de hipervitaminose. E existe ainda os casos de carência extrema ou total de vitaminas, chamado de avitaminose. As vitaminas são divididas em dois grupos:
as lipossolúveis: são solúveis em gordura e por isso podem ser armazenadas pelo corpo – fazem parte deste grupo as vitaminas A, D, E e K; o segundo grupo é das vitaminas hidrossolúveis: como o nome já diz, solúveis em água, não podem ser armazenadas no corpo. É o caso das vitaminas do complexo B e a vitamina C. Perceba o seguinte: de forma geral, as suplementações de vitaminas hidrossolúveis são de ordens mais elevadas – no mercado, encontram-se versões de vitamina C de meio grama a 1 grama a dose diária, exatamente pelo fato delas não serem armazenadas no organismo. Já nas vitaminas lipossolúveis as suplementações, no geral, têm ordens de grandeza muuuito menores, pois elas se acumulam no organismo. Temos uma percepção geral, de que ‘mais é melhor – se eu tomar mais, os resultados serão ainda mais satisfatórios’, mas isso não é verdadeiro quando se trata do nosso organismo. Estou trabalhando em um texto só sobre isso, depois você procura por ele aqui na plataforma – “Quando mais é menos – a lógica do corpo humano”. Nossa saúde é um verdadeiro ajuste fino sob diversas perspectivas. Vou compartilhar com você algumas experiências pessoais quando for oportuno.
Então, quanto devemos suplementar de D3 para chegarmos ao potencial máximo de nosso organismo? Antes de responder a essa pergunta, é melhor eu aprofundar o que É a D3, como nosso corpo a produz, em que condições, como ela é ativada e quando suplementar.

(Continua na parte 2)

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