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Desejo, determinação, obstinação: os três níveis do processo de realização

Eu não conheço ninguém que não deseje uma vida feliz. Ou uma vida próspera. Ou uma vida emocionalmente bem resolvida, com família e amigos, em um círculo motivador e enriquecedor.

Por outro lado, imagino também que não há ser humano neste planeta que sonhe em ter uma vida miserável, em passar fome, que sonhe em não ter um lar para morar ou um emprego que minimamente o sustente ou seja motor de sua realização.

Pois bem. Desejar é, portanto, o primeiro nível do processo de realização. Através do desejo, almejamos algo, ambicionamos ter ou alcançar, cria-se uma tensão em direção a um fim, a um objetivo.

Mas desejar não mobiliza, não movimenta, não constrói. Por si só, o desejo não rompe barreiras, não modifica a realidade, não transcende. Populações carentes em países fragilizados certamente não desejam sua pobreza, mas não conseguem se livrar dela. É necessário agregar um outro componente ao desejo. É necessária uma forte inclinação. Uma postura interna que gere o despertar para o movimento, uma energia suficientemente firme que se volte ao seu objetivo. A este conjunto de forças internas dá-se o nome de determinação.

Quem é determinado busca um objetivo e não se desvia dele. Está, portanto, em um outro nível no processo de realização, pois agora há um componente que impulsiona em direção ao que se almeja. É uma espécie de processo de viabilização do que se pretende alcançar. Entende o que eu digo?

Mas a determinação basta? Em todos os casos? Será? Em que momento ela é insuficiente?

A mim me parece que a determinação é insuficiente quando o componente do desconhecido cresce à sua frente, se interpondo entre você e seu sonho. O desconhecido fragiliza o aspecto racional do propósito ou de seu curso. Quer um exemplo? Vou contar um caso pessoal, verdadeiro, que me fez questionar uma série de aspectos em minhas crenças pessoais.

Em março do ano 2010, fiz aniversário. Eu estava disposto a iniciar uma série de novas atividades em diversas frentes. Em uma delas, decidi iniciar um hábito em que nunca acreditei – jogar na loteria. O nome já diz tudo: loteria é um acontecimento imprevisível, improvável, determinado pelo acaso. Não há controle. Não há qualquer consistência racional. As chances são planejadamente mínimas de se ter êxito. E por ser isto mesmo, aleatório e longe de qualquer tipo de controle, eu decidi investir na experiência, já que eu sou um cara muito racional. Eu dei uma oportunidade ao improvável.

Assim, resgatei uma antiga memória familiar: meu pai jogava minimamente um cartão da Mega-Sena em que registrava as datas de aniversário da família. Em casa, éramos 6 – meu pai, minha mãe, eu e 3 irmãos. Hoje, somos 5. Eu, minha esposa, meus 3 filhos. Tive de apelar para um sorteio adicional para chegar ao sexto número. Este é cartão com 5 datas de aniversário, mais um número aleatório: 4, 7, 13, 25, 27 e 58. Este último número, lógico, foi o sorteado por mim. Impus uma regra: estava determinado a jogar em todas as extrações, durante um ano inteiro, até a semana de meu aniversário seguinte, em março de 2011. Seriam 52 semanas em que eu deveria acompanhar os resultados e replicar a aposta para as extrações.

Passou-se o primeiro mês. O segundo. O terceiro. Um incômodo começou a se instalar em minha rotina. Eu estava me esforçando determinadamente para manter o ritmo, mas em algum momento acabei falhando e perdi um dos sorteios da Mega -Sena. Atravessei o quarto mês. No final do quinto, conclui que eu com esta experiência, tinha somente instalado um hábito incômodo em minha rotina. Jogar todas as semanas me pareceu, finalmente, uma experiência que não geraria frutos, pois a chance de se ganhar o prêmio com um cartão simples, de 6 números, é de 1 em 50 milhões. Racionalmente falando, tende a zero. Fique sabendo que a probabilidade de você morrer atingido por um raio é 25 vezes maior que ganhar na Mega Sena.

Ao término do quinto mês seguido de jogo, em final de agosto de 2010, desisti da experiência. Mesmo porque, puxando pela memória, acho que consegui acertar minimamente 1 ou 2 números, umas poucas vezes.

Vamos agora para dezembro de 2013. Eu chego em casa depois de um dia de trabalho e encontro minha esposa em seu computador e meus filhos ao redor. Eles estavam planejando tentar a sorte no gigantesco prêmio da “Mega Sena da Virada”. Mais de 200 milhões de reais. Estavam felizes, sonhando com o resultado improvável de ganhar. Sonhar é ótimo! Foi então que me lembrei daquela minha solitária experiência de jogar durante um ano inteiro. Aberto no computador estava um aplicativo que avaliava a sorte, a chance dos seus palpites, quantas vezes os números escolhidos já tinham sido sorteados, os números menos sorteados, etc. Eu digitei 4, 7, 13, 25, 27 e 58. Na tela apareceu o seguinte:

“Parabéns, na extração 1.216, em 22 de setembro de 2010, você teria ganho R$ 45 milhões e 800 mil reais”.

O quê? Como assim? Quer dizer então que eu estive a 23 dias de me tornar um milionário, um dos 20 maiores ganhadores da Mega Sena e abdiquei da oportunidade? Pois é.

O que isso significa? Para mim, é simples, a determinação não bastou quando o imponderável se agigantou. Portanto, há um terceiro nível no plano da realização: trata-se da obstinação! Para além da determinação há esse apego forte, excessivo, às próprias ideias e convicções. Quem vê uma pessoa obstinada de perto pode até achá-la teimosa, implicante ou insistente. Antes de ser uma ideia fixa, trata-se somente de perseverança, de firmeza e da constância necessária para se chegar a um objetivo. Muitas vezes, da própria paixão por realizar, por concluir um caminho escolhido. Simples assim.

Dessa experiência toda, eu tirei várias lições, e gostaria que você se colocasse em meu lugar e tirasse suas próprias conclusões.

Eu finalizo com um convite: passe a observar as pessoas de sucesso autêntico. Aquelas que foram desacreditadas no início. Aquelas que, por não saberem que era impossível de chegar ao objetivo que pretendiam, acabaram realizando, contra toda perspectiva desfavorável, contra toda impossibilidade, contra todas as minúsculas probabilidades, contrariando todas as gigantescas chances de dar errado.

Na vida, devemos desejar muito, a todo instante. Em alguns momentos, devemos ser determinados. Mas acima de qualquer suspeita, quem quer chegar ao seu objetivo, tem de ser obstinado.

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